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Pansophia

Pansophia

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A cidadania ateniense


por Osvaldo Duarte
cidado ateniense
Atenas não cedia o direito de cidade aos estrangeiros domiciliados em seu território. A princípio, eram considerados cidadãos atenienses, os filhos de pai ateniense independentemente da pátria da mãe.
Com desenvolvimento do comércio, muitos estrangeiros foram atraídos à Ática, e ali se estabeleceram, provocando um aumento significativo no número de casamentos mistos.
Em 451 a.C., Péricles propôs a lei de que era considerado cidadão, filho de pai e mãe, ambos com direito de cidade. O filho que não se enquadrava nesta lei, era considerado impuro, bastardo, um nothos; por este motivo, o ateniense quando apresentava o filho à fátria, jurava que sua esposa era também ateniense. O título de cidadão era cedido ao jovem de dezoito anos, pela sua inscrição no registro no demo. Durante os dois próximos anos, o jovem servia como membro da milícia e, somente aos vinte anos é que tomava posse dos seus direitos como cidadão, possuindo assim, a plenitude dos direitos civis e políticos, podendo ter assento na assembléia, opinar e votar, ter um cargo na magistratura e nas demais funções que competiam aos cidadãos. Para exercer a magistratura superior, o jovem deveria ser abastado.
A fátria, embora não tenhamos clareza do seu significado no mundo grego, ao que tudo indica, era um agrupamento constitutivo da cidade, evocando uma relação familiar, ligada à vida dos cidadãos, pelo nascimento, pela iniciação do jovem, casamento, etc..
Além de gozar dos direitos políticos, como dissemos acima, os cidadãos eram os únicos que possuíam terras. A maior parte do seu tempo era destinada aos assuntos da cidade (questões públicas). O comércio e a indústria pouco o atraiam, pois tais funções não eram dignas de um cidadão, a não ser a exploração de pedreiras e das minas por estarem ligadas diretamente às suas propriedades. Cabia aos estrangeiros (metecos) e aos escravos o trabalho industrial e comercial.
metecos
A democracia triunfava, e o direito de cidade dava aos que dele desfrutavam vantagens materiais e morais. Quem não era considerado cidadão, empenhava-se em sê-lo, ao mesmo tempo quem o era, defendia esse privilégio. O direito de cidade somente era concedido a um estrangeiro apenas sob reconhecimento nacional, uma recompensa por serviços eminentes.
Créditos:
CROISET, A. As Democracias Antigas. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1923.
GLOTZ, Gustavo. História Econômica da Grécia. Lisboa, Edições Cosmos, 1973.
MOSSÉ. Claude. O Cidadão na Grécia Antiga. Lisboa, Edições 70, 1999.










segunda-feira, 11 de março de 2013

Das classes sociais – Platão – 428/7 – 347/6

por Osvaldo Duarte

 

 

Para propor uma divisão de classes (parte da cidade) na sua República – Livro III, Platão recorre a uma nobre mentira da Fenícia:

 

“(...) na verdade, tinham sido moldados e criados no interior da terra, tanto eles, como as suas armas e o restante do equipamento; e que, depois de eles estarem completamente forjados, a terra, como sua mãe que era, os deu à luz, e que agora devem cuidar do lugar em que se encontram como de uma mãe e ama, e defendê-la, se alguém for contra ela, e considerar os outros cidadãos como irmãos, nascidos da terra.

 

No Estado harmonioso e pacífico, os cidadãos devem viver como irmãos e, cada classe tem o seu papel importante na manutenção dessa sociedade. Platão divide esta sociedade em três classes: Os que governam (os que mandam-Filósofos), os auxiliares (guerreiros), e os que produzem (lavradores, artífices).

 

“(...) mas o deus que vos modelou, àqueles dentre vós que era aptos para governar, misturou-lhes ouro na sua composição, motivo por que são mais preciosos; aos auxiliares, prata; ferro e bronze aos lavradores e demais artífices.”

 

Esta estrutura social não era rígida quanto à escolha dos cidadãos entre as classes, pois estavam todos unidos pelo grau de parentesco.

 

Prossegue Platão:

 

“Uma vez que sois todos parentes, na maior parte dos casos gerareis filhos semelhantes a vós, mas pode acontecer que do ouro nasça uma prole argêntea, e da prata, um áurea, e assim todos os restantes, uns dos outros. Por isso o deus recomenda aos chefes, em primeiro lugar acima de tudo, que aquilo em que devem ser melhores guardiões e exercer a mais aturada vigilância é sobre as crianças, sobre a mistura que entra na composição das suas almas, e, se a sua própria descendência tiver qualquer porção de bronze ou ferro, de modo algum compadeçam, mas lhe atribuam a honra que compete à sua conformação, atirando com eles para os artífices ou os lavradores, e se, por sua vez, nascer destes alguma criança com parte de ouro ou de prata, que lhe dêem as devidas honras, elevando-os aos guardiões, outros aos auxiliares ...”

 

ouro prata bronze

 

Os governantes deverão ter uma boa educação e não será permitido possuir bens próprios, a não ser coisas de primeira necessidade, sendo que ao possuírem dinheiro, terras e habitações serão administradores dos seus próprios bens e não cuidarão da cidade.   Esta classe deverá ser pura, não precisando nada de humano, pois já têm em sua alma ouro e prata.

 

 

Créditos:

PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.                                                                                        

AMZALAK, M.B. Platão e a Economia da Cidade. Lisboa, 1950.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O governo de um só – Tomás de Aquino – 1224 - 1274 d.C

 

por Osvaldo Duarte

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Com vistas à natureza, Tomás reforça a sua tese de que o governo de um só, isto é, o governo do príncipe, é preferível aos demais regimens de governo.

“O mais bem ordenado é o natural; pois, em cada coisa, opera a natureza melhor. E todo o regímen natural é de um só. Assim, na multidão dos membros, um é o que a todos move, isto é – o coração; e, nas partes da alma, preside uma faculdade principal, que é a razão. Têm as abelhas uma só rainha, e em todo o universo há um só Deus, criador e regedor de tudo.Tôda a multidão deriva de um só. Por onde, se as coisas de arte imitam as da natureza e tanto melhor é a obra de arte, quanto mais busca a semelhança da que é da natureza, importa seja o melhor, na multidão humana, o governar-se por um só”.

O nome tirano, segundo o doutor Angélico, é derivado de força, pois oprime pelo poder, ao invés de regrar pela justiça.

“Assim, porém, como é ótimo o regímen do rei, também é péssimo o governo do tirano”.

Do mau governo:

Tirania – governo de um só , regime injusto.

Oligarquia – principado de poucos que por terem riqueza, oprimem o povo, diferindo do tirano apenas em número.

Democracia – regime iníquo que se exerce por muitos; populacho oprime os ricos pelo poder da multidão, sendo então todo o povo como um só tirano.

Do bom governo:

Aristocracia – governo de poucos, mas virtuosos.

Em defesa do Rei:

Rei é o pastor que busca o bem comum e não o interesse próprio.

Créditos:

AQUINO. Tomás. Do Govêrno dos Príncipes. Trad. Arlindo Veiga dos Santos. São Paulo, Editora Anchieta, 1946.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Os órgãos dos sentidos segundo o filósofo Alcmeão


por Leandro Morena


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Alcmeão foi um filósofo grego natural de Crotona. Foi discípulo do filósofo Pitágoras (580-497 a.C.), sabe-se que ele viveu no séc. V a. C., porém não há registro preciso da data de nascimento ou morte. Foi médico e foi o primeiro que dissecou um cadáver humano para fins do entendimento fisiológico. Alcmeão dedicou-se na investigação das ciências naturais e desenvolveu a sua tese calcada no entendimento dos processos fisiológicos das sensações e a ligação deles com o cérebro. Segundo Barnes, Alcmeão explica que os órgãos dos sentidos funcionam da seguinte maneira:

Olfato: o nariz faz com que identifiquemos os aromas que são sentidos, simultaneamente, ao inspirá-los, por sua vez, conduz a respiração diretamente ao cérebro.
Paladar: já a língua tem a capacidade de distinguir sabores, pois, tem a facilidade em dissolver as coisas com seu calor, por serem brandas e cálidas, acolhendo e transmitindo-as por serem de textura solta e suave.
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Audição: provém da existência de um espaço vazio no interior dos ouvidos que gera ressonâncias, que por sua vez, faz com que a cavidade ecoa e o ar faz com que repercute numa resposta.
Visão: os olhos enxergam através do liquido que os abrange; flamejam quando fixam-se num determinado objeto.  A visão é concebida através da parte transparente e brilhante, quando esta produz reflexão, e quanto mais pura é, enxergam com maior nitidez.

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Alcmeão chega à conclusão de que todos os sentidos estão diretamente ligados ao cérebro, por isso se o cérebro sofrer qualquer tipo de alteração ou dano, automaticamente, afetará os órgãos dos sentidos. O curioso é que Alcmeão não explica como age o órgão do sentido tato.

Créditos:
BARNES, Jonathan. Filósofos Pré-Socráticos. Trad. Julio Fischer. Martins Fontes, São Paulo, 2003.
Foto 3:  http://megaarquivo.com/page/36/?iframe=true&width=900&height=450

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Crítica à vivissecção - Parte I

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por  Leandro Morena

Vivissecção é o termo que se emprega quando se disseca um animal, ainda vivo, para fins de estudos para o entendimento da fisiologia da espécie. A prática da vivissecção é feita desde a antiguidade. O filósofo grego Aristóteles (384–322 a.C.) foi um dos primeiros que realizou a prática da dissecação animal. O filósofo dissecava cadáver de animais, pois em sua época não existia um estudo específico sobre a fisiologia dos animais. Com o mecanicismo cartesiano cujo pensamento afirmava que os animais não passavam apenas de máquinas, fez com que a prática vivisseccionista se tornasse uma revolução cientifica. Mas ao longo do tempo a finalidade da vivissecção foi direcionada para o campo da experimentação animal, onde pesquisas e testes com animais são feitos para criar remédios, cosméticos e até armamentos potentes para o uso exclusivo do homem. Foi no séc. XIX que a prática da experimentação animal tornou-se um compromisso para as pesquisas dos cientistas. Um dos principais responsáveis por isso foi o médico fisiologista francês Claude Bernard (1813-1878) que criou a medicina experimental praticando vivissecção em cães.
Ainda hoje a vivissecção é praticada em algumas áreas, prática essa que vem sendo reduzida graças às organizações dos direitos dos animais, que estão alertando e divulgando para a população os testes e as pesquisas que estão sendo feitas nos laboratórios gerando o sofrimento de milhares de animais. A luta contra a vivissecção está se fortalecendo e ganhando cada vez mais adeptos, formando um conjunto de pessoas que, por sua vez, são porta-vozes dos animais, no qual o maior objetivo a ser alcançado é que essa prática seja banida de uma vez por todas do mundo contemporâneo e fique apenas relatada nos livros de história.

Os campos da experimentação animal são:

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 clip_image002Mas não foi só nos dias atuas que a crítica à vivissecção foi feita. Com o surgimento do mecanicismo cartesiano, alguns filósofos, durante a trajetória da história da filosofia pós Descartes, foram críticos árduos dessa prática. Um dos críticos foi o filósofo francês Voltaire (1694-1778) cujo nome verdadeiro é François Marie Arouet. Voltaire chama a atenção dos mecanicistas pelo fato de não conseguir entender como é que eles podem afirmar, com toda a convicção, a exclusão da dor e dos sentimentos nos animais? Voltaire dá exemplos de esperteza em animais e cita o cão que quando não encontra o seu dono fica aflito e inquieto, procurando-o por toda a parte, ou quando o cão vê o seu dono chegar, salta de alegria pedindo mimos.
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Voltaire revolta-se chamando os mecanicistas de criaturas bárbaras, pois agarram o cão, pregam-no numa mesa, dissecam-no vivo e observam-no gemendo por causa da dor; observam os órgãos internos do animal, órgãos estes que são muito semelhantes aos nossos. Voltaire completa o seu raciocínio afirmando: pra que a natureza criaria os animais com tais sentimentos e colocaria neles órgãos internos muito semelhantes aos dos seres humanos? Para que não sintam nada!
 
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Créditos:
GREIF, Sérgio e TRÉZ, Thales. A Verdadeira face da experimentação animal. Editora Fala Bicho, Rio de Janeiro, 2000;
SINGER, Peter. Libertação Animal. Trad. Marly Winckler. Editora Lugano, São Paulo, 2008;
VOLTAIRE. Dicionário Filosófico Voltaire. Trad. Líbero Rangel de Tarso. Atenas Editora, São Paulo, 1937.
Foto 1: http://pt.wikipedia.org/wiki/Voltaire
Foto 2 : http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702010000300002&script=sci_arttext
Foto 3 : http://www.midiaindependente.org/pt/red/2005/07/321897







sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Da Arché ou do Elemento Primordial

por Osvaldo Duarte

 

Apresentamos de relance alguns fragmentos dos primeiros filósofos jônios que trataram da Arché (começo, ponto de partida) e também os fragmentos de Heráclito. Omitimos os dados biográficos porque pretendemos tão-somente mostrar alguns preciosos fragmentos sobre o tema. Optamos, por uma questão de praticidade, a tradução dos fragmentos de Eudoro de Sousa.

 

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Segundo a tradição, a Filosofia “começa” com a Escola Jônica, embora o termo “escola” enquanto moderno, para alguns estudiosos não parece ser adequado, no entanto, estão de acordo quanto ao berço da Filosofia: a Jônia, nas costas da Ásia Menor, a primeira região de civilização helênica.

 

Os primeiros filósofos: Tales, Anaximandro e Anaxímenes, tinham como objeto de estudo a physis (Natureza), por este motivo serem conhecidos também como fisiólogos (os que estudam a natureza).

 

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O primeiro filósofo e fisiólogo, Tales de Mileto (ca. 624-546), foi considerado por Aristóteles como “o príncipe da Filosofia”; como filósofo procurava o saber desinteressado e, considerava como substrato original, isto é, como princípio de tudo, a água.

 

Tales, (...), afirma que o princípio é a água (assim, declarava ele que a Terra flutua na água) crença a que ele teria sido levado pela observação de que tudo se nutre do <elemento> úmido e que o próprio calor dele provém e nele vive (...).

 

Tales de Mileto, filho de Examias, e Hípon (que, parece, era ateu) induzidos pelas aparências sensíveis, asseveravam que a água é o princípio.

 

 

 

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Anaximandro (ca.610-545), que nos legou o primeiro escrito filosófico do ocidente – Sobre a Natureza, admitia um princípio universal, entretanto, se opondo a Tales, considerava como arché o ápeiron (não limitado, indefinido) que é um todo e nunca muda e são também infinitos em número, imortal e imperecível.

 

 

[O ápeiron (infinito, ilimitado) é princípio primordial (arché)] Dos que admitem um só princípio do movimento, infinito, A., filho de Praxíades, de Mileto, discípulo de Tales, diz que o infinito é o elemento e princípio primordial, tendo sido ele o primeiro que introduziu a palavra <arché>. E afirma que não é a água ou qualquer outro dos que nós denominamos “elementos”, mas certa natureza infinita, diferente, da qual haveriam nascido todos os céus e todos os cosmos neles contidos.

 

De certa natureza infinita nasceu o céu e os cosmos nele contido. Sem tempo e sem idade.

 

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Anaxímenes (ca.585-528) foi discípulo de Anaximandro e considerava o ar como arché. O ar é a força vital, a divindade que anima.

 

Anaxímenes (...) discípulo de Anaximandro, também admite só uma substância, que – tal como seu mestre, declara infinita. Mas <a substância> não é indeterminada, como era para Anaximandro, mas sim determinada, pois diz que ela é o ar (...).

 

Como nossa alma, que é ar, nos mantém firmemente unidos, assim o ar e o vento envolvem todo o cosmo.

 

 

Para Heráclito (ca. 544-484) a arché é o fogo.

 

(...) Heráclito de Éfeso também admite um só <princípio> movente e limitado [finito], e como tal, propõe o fogo. Do fogo derivam eles tudo quanto existe, por condensação e rarefação, e tudo resolvem no fogo, supondo que ele é a única natureza substancial (...).

 

Também Heráclito assevera que o Cosmo, ora se dissolve no fogo, ora renasce do fogo, à medida de certos períodos.

 

Créditos

BERGE, Damião. O Logos Heraclítico. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.

CASERTANO, Giovanni. Os Pré-Socráticos. Trad. Maria da Graça Gomes de Pina. São Paulo, Edições Loyola, 2009.

CHÂTELET, François. História da Filosofia ideias, Doutrinas. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981.

HIRSCHBERGER, Johannes. História da Filosofia na Antiguidade. Trad.: Alexandre Correia. São Paulo, Editora Herder, 1957.

REVISTA BRASLIERA DE FILOSOFIA VOLS.: 10-14, 1954.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Carta 58 – Do Devir (Heráclito) – Sêneca – 4-65 d.C.

 

por Osvaldo Duarte

“podemos e não podemos mergulhar duas vezes no mesmo rio”.

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Ainda na carta 58, Sêneca, através de Platão, faz uma leitura do fragmento DK49a; onde, Platão não considerava entre os seres dotados de existência própria “o ser” existente, isto é, aquele que é percebido por afecção, pois está num contínuo devir, sofrendo constantemente acréscimos ou mutilações.

O homem na velhice não é idêntico ao que foi na juventude; nem mesmo é, pela manhã, o que foi no dia anterior. Com efeito, nossos corpos fluem com rapidez no tempo como a corrente dos rios.

Não devemos temer a morte, pois cada momento é resultado da morte anterior do nosso corpo. O homem é fraco, efêmero e vive entre coisas vãs, as deseja como se houvesse permanentemente possuí-las, num mundo em que tudo existe para serviço dos sentidos que apetece, aguça e excita a vontade. Essas coisas são imaginárias e mudam de aspecto com o tempo e nada possuem de estável e permanente. Tudo o quanto vemos acompanha o fluir do tempo e não permanece idêntico. Lúcio Aneu nos aconselha:

“Desprezemos, pois, todas as coisas que tão pouco preciosas são a ponto de a sua própria existência ser duvidosa.”

Sêneca nos diz que, enquanto fala sobre as mudanças, ele mesmo já mudou.

“Este é o sentido da frase de Heráclito: “podemos e não podemos mergulhar duas vezes no mesmo rio”. O nome do rio permanece o mesmo, a água, essa já passou adiante. Num rio o fenômeno é mais sensível aos olhos do que num homem, mas não é menos rápido o curso do tempo em nós; por isso me espanta a loucura que nos leva a tanto amarmos essa coisa fugidia que é o corpo, e temer morrermos um dia quando cada momento é a morte do estado imediatamente anterior.”

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Créditos:

SÊNECA, L. A., Cartas a Lucílio. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1992.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Carta 58 – Do Ser – Sêneca – 4-65 d.C.

por  Osvaldo Duarte
 
Sêneca, diante da indigência vocabular romana, confessa a sua dificuldade em apreender em latim “o ser” como conceito, restando-lhe apenas o verbo (aquilo que é), assim diz ele:
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“(...) Maior será a tua condenação da pobreza vocabular romana quando souberes que é uma única sílaba aquilo que não consigo traduzir to on (“o ser”). Posso parecer-te homem de fraco engenho: há um recurso imediato, posso verter esse conceito pela expressão quod est (“aquilo que é”). Mas é evidente a diferença entre as duas: sou obrigado a usar um verbo em vez de um nome. A necessidade obriga, porém, a dizer “aquilo que é”!
 
Para Sêneca, nesta carta 58, Platão servia-se de seis sentidos distintos para designar “o ser”:
 
1º - “O ser” – Pensável: O que não pode ser captado pelos sentidos.
2º - “O ser” – Por excelência: deus – O maior e mais poderoso de todos.
3º - “O ser” – Ideias: O modelo eterno de tudo que existe na natureza.
4º - “O ser” – Eidos: A forma deduzida do modelo.
5º - “O ser” – Existente: Homens, animais, plantas, objetos.
6º - “O ser” – Simulacro da existência: Vazio, tempo.
 
O Ser:
 
“O que vamos procurar em primeiro lugar é aquele gênero primeiro do qual derivam todas as espécies, do qual se origina toda a divisão, no qual tudo está compreendido”.
 
Para explicar “o ser”, valendo-se do conceito aristotélico, o nosso filósofo começa pela definição de espécie e, depois, procura definir o que é gênero.
 
Espécie: Homem, cavalo, cão.
Gênero: Elemento comum à espécie, no caso acima, Animal.
 
Mas há também, seres que têm vida sem serem animais, por exemplo, as plantas e as árvores; portanto, existe um gênero superior que é o Animado. Ainda assim, há seres que carecem de vida, como as pedras, cujo gênero é Inanimado.
 
Com efeito, para o autor da carta, existe um gênero acima dos quais possuem corpos, pois dizemos que algumas coisas são corpóreas e outras incorpóreas, esse gênero primitivo é o que se denomina de forma inadequada: aquilo que é (= o ser). Assim, Sêneca define o gênero mais primitivo, o geral, do qual todas as espécies derivam.
 
Para facilitar a compreensão do que foi dito acima, mostraremos logo mais, através de diagrama, como Sêneca explica o que é “o ser”.
 
 
Créditos:
 
SÊNECA, Cartas Consolatórias, tradução Cleonice Furtado Mendonça Van Raij, Rio de Janeiro, Pontes, 1992.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Carta 58 – Da indigência vocabular – Sêneca – 4 – 65 d.C.

 

por Osvaldo Duarte

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Sêneca, na carta 58, comenta a indigência vocabular à sua época. Com efeito, como se não bastasse a pobreza vocabular - que seria a falta de um vocábulo adequado, muitas palavras caíram em desuso pelo requinte.

Carta 58 (excerto):

“Até que ponto é grande a nossa pobreza, direi mesmo a nossa indigência vocabular, nunca o tinha compreendido tão bem como hoje. Estávamos falando casualmente de Platão: mil noções se nos depararam carentes, mas desprovidas, de um vocábulo apropriado; em contrapartida há muitas outras que tiveram nome, caído em desuso devido ao nosso gosto requintado. Ora, ter gosto requintado no meio da indigência é algo insuportável.”

Créditos

SÊNECA, L. A., Cartas a Lucílio. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Fontes da História da Filosofia – Eudoro de Sousa - 1911-1987



por Osvaldo Duarte

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Dialogar com os antigos é por si mesmo, uma tarefa árdua. Mesmo sendo herdeiros da cultura ocidental, ao debruçarmos sobre uma boa tradução de algum texto grego, a dificuldade que se impõe de imediato é capturar o frescor do seu espírito. Por espírito pretendemos dizer o que cada palavra traduzida conserva do seu significado original ou o próprio texto como um todo. Oxalá pudéssemos ler todos os textos gregos no seu original; diante de tal impossibilidade, contamos com o excelente trabalho de tradução dos textos diretamente do grego de alguns estudiosos.

Num dos exemplares da Revista Brasileira de Filosofia, o professor Eudoro de Sousa, escreveu um artigo sobre a importância das obras serem lidas em grego ou em nossa língua, assim comentou o mestre:

“Aliás, as obras dos filósofos gregos têm de ser lidas por nós, em grego ou em português, porque, in nuce, o idioma é cultura vivente. Não o ignoram os povos que mais ativamente contribuíram para a formação e desenvolvimento da chamada civilização ocidental; e, por isso, não desdenharam muitos dos seus mais ilustres representantes, do ingrato mister de traduzir os “clássicos” da filosofia. Se, por conseguinte, alguma razão nos assiste, a nós, portugueses e brasileiros, para não renunciar ao papel que por ventura nos foi distribuído neste drama da cultura, cujo prólogo, ou ato primeiro, há mais de vinte sáculos subiu à cena no tablado grego, - tenhamo-lo por certo: não é um texto intermediário, francês, inglês, italiano ou alemão, que os escritos dos grandes pensadores da Hélade deverão ser lidos em nossas escolas.”


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Créditos:

Revista Brasileira de Filosofia, Vol. IV – Instituto Brasileiro de Filosofia - SP-1954.