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Pansophia

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sábado, 10 de agosto de 2013

A consciência das máquinas

por Leandro Morena
O mundo em que vivemos passa por grandes transformações, e uma delas é no campo da tecnologia. Nas últimas décadas, a tecnologia das máquinas vem crescendo, chegando num patamar espantoso de linguagens computacionais cada vez mais sofisticadas, e cada vez mais, estão fazendo parte do cotidiano das pessoas.  Hoje em dia, um aparelho pequeno pode armazenar milhares de informações, que jamais a mente humana foi capaz de guardar. Num passado não muito distante, uma fábrica de biscoitos empregava uns 200 funcionários. Hoje em dia, com a sofisticação das máquinas, essa mesma substituiu a mão de obra dos humanos pela máquina, ou seja, uma única pessoa que controla essa máquina substituiu 90% da mão de obra braçal da empresa.
             clip_image002

clip_image004O filósofo francês René Descartes (1596 -1650), afirmava que o corpo humano é uma máquina sofisticada, só que, diferentemente das máquinas, possui consciência, a capacidade da linguagem e de raciocinar, pois possui uma alma imortal. Vemos que essa teoria de Descartes pode-se empregá-la para os dias de hoje, pois as máquinas raciocinam, tem a capacidade da linguagem e até, no caso dos robôs, andam. Um exemplo disso é no Japão, onde existem robôs com uma tecnologia extremamente avançada onde o robô é capaz de subir e descer escadas, fazer a limpeza da casa, conversam entre outras funções.
                                          clip_image005                           

clip_image006O filósofo inglês John Gray (1948-   ) afirma no seu livro Cachorros de Palha, que as máquinas estão adquirindo consciência e poderão futuramente  substituir os seres humanos, pois o sofisticação da inteligência artificial está tão rápida que fará com que os humanos percam o controle sobre elas. Segundo Gray, a substituição da humanidade pelas máquinas é um fato curioso e um cenário inédito, pois o ser humano se viria empobrecido e tentará lutar por sua sobrevivência contra um inimigo que ele mesmo criou. Gray cita aqueles que têm medo de que as máquinas se tornem conscientes, e temem pelo simples fato de pensar que a consciência é a característica mais preciosa que o ser humano pode ter.  Segundo Gray, as máquinas não só adquirirão consciência, como também, tornar-se-ão seres espirituais, por uma vida interior não mais contida pelo pensamento consciente do que dos seres humanos. As máquinas adquirirão autoconsciência e com isso cometerão erros a cairão na ilusão.
                Gray afirma que com a criação de novas tecnologias, automaticamente, se criarão novas linguagens, e em consequência, fará com que as linguagens artificiais das máquinas passarão a ser linguagens naturais. Máquinas conversarão com máquinas e com o próprio humano, e será uma linguagem que ninguém compreende completamente e é uma linguagem não menos rica e confusa que a dos humanos.
                Para o filósofo esse futuro não está distante, à medida que as máquinas ficam cada vez mais sofisticadas, será maior a semelhança das máquinas com o homem, pois a consciência pode ser a característica humana que as máquinas poderão, mais facilmente, reproduzir.
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                Gray afirma que a invenção do mundo digital foi como uma extensão da consciência humana, só que transcendeu. Para Gray está nascendo uma nova selva virtual que nunca compensará a perda da selva natural que os seres humanos estão destruindo rapidamente, mas pode-se comparar a esta por ser passível de ser entendida por eles. Nas palavras de Gray, essa nova selva virtual é um caminho que leva além dos limites do mundo dos seres humanos.
clip_image009Gray cita a afirmação de Bill Joy (1954 -  ) que é um cientista da computação, um dos arquitetos dos microprocessadores:
“Agora, com a possibilidade de termos computadores no nível de humanos em cerca de trinta anos, uma nova ideia se apresenta: que posso estar trabalhando para criar ferramentas que possibilitem a construção da tecnologia capaz de substituir nossa espécie. Como me sinto a esse respeito? Muito desconfortável.”
                                                                                                    Trad. Maria Lucia de Oliveira

clip_image011Na visão de Gray conforme as máquinas vão se sofisticando, elas possuirão uma alma, e isto se deve ao fato de usar uma forma de se comunicar que antecede em muito a religião, citando a cristã. Gray cita a afirmação do filósofo e poeta espanhol George Santayana (1863-1952):
“O próprio espírito não é humano; ele pode surgir em qualquer vida; pode separar-se de qualquer provincianismo; assim como existe em  todas as nações e religiões, também pode existir em todos os animais, e não se sabe se em muitos seres nos quais nem sonhamos e no meio de quais mundos.”
Trad. Maria Lucia de Oliveira

                Na modernidade, às dificuldades oriundas da nova tecnologia, faz com que milhares de pessoas fiquem desempregadas, ocasionando uma crise mundial sem rumo, e catastroficamente sem nenhuma solução de emergência, mostrando que as próximas décadas, o número de pessoas desempregadas por causa da robotização será espantosa. 
 No dia 08 de agosto desse ano, deparei-me com a notícia que está repercutindo no mundo inteiro, sobre a crise da União Européia, crise essa que não é nenhuma novidade e o destaque dessa vez foi a Grécia que, cada vez mais, afunda-se numa crise de proporções devastadoras, e o que me chamou a atenção nessa notícia, foi o fato do número de jovens  desempregados nesse país, chegando a um número espantoso de 65% dessa faixa etária, deixando os governantes desesperados e o pior, sem nenhuma solução para resolver essa “tsunami”, digamos assim, num curto ou num longo prazo.  Frutos de um mundo cheio de tecnologias que não para de crescer.
clip_image012 A queda de braço entre máquinas e humanos está apenas começando, e se, continuarmos assim, o que podemos esperar do futuro? Até onde chegará a sofisticação das máquinas? Será que um dia a tecnologia terá de ser freada para que a humanidade não entre em colapso? A humanidade terá um futuro promissor, fantástico e fora do normal? Ou será que o futuro da humanidade vai ser um desastre?  Perguntas essas difíceis de responder e mostram-nos um futuro inserto. E deixo para vocês, caros leitores, tirarem suas próprias conclusões.

Créditos:
GRAY, John. Cachorros de Palha. Trad. Maria Lucia de Oliveira. 2ª Edição, Rio de Janeiro, Editora Record,  2006.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Crítica à vivissecção Parte II

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por Leandro Morena

clip_image002O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi um crítico severo na questão da prática da vivissecção. Para ele essa prática tem por objetivo causar sofrimento nos animais, pois é puramente cruel e ilógica. Schopenhauer critica os biólogos alemães de sua época, pois tratavam os animais com crueldade, com a finalidade de resolver questões de caráter inútil, questões essas, que muitas vezes a solução encontra-se nos livros; e ele ainda afirma que esses biólogos são preguiçosos por não lerem tais livros. 

 Na época de Schopenhauer, foi muito comum cientistas, filósofos, médicos e teólogos praticarem experiências com os animais, pois essas experiências soavam como um status, mesmo se essas teorias funestas elaboradas por eles não causassem nenhum progresso, eram aplaudidos e elogiados.

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            Schopenhauer cita alguns exemplos da crueldade praticada com os animais por intelectuais da época.  Um dos casos de crueldade com os animais narrada por Schopenhauer foi o episódio do professor Ludwing Fick (1813-1858), que foi um professor de anatomia na Universidade de Marburg, e na sua obra “Causas das formações ósseas” de 1857, o próprio relatou que praticou a extirpação nos globos oculares de animais filhotes com a única finalidade de comprovar que a cavidade deixada por tal prática faz com que os ossos comecem crescer cobrindo essas cavidades. Noutro exemplo, do mesmo patamar do primeiro e não menos tétrico, foi a experiência absurda feita pelo barão Ernst von Bibra (1806-1878), um naturalista alemão, que afirmara, numa de suas palestras, que fez com que uma dupla de coelhos viessem a morrer de fome, e fez tal prática, apenas para concluir, simplesmente, que os componentes químicos existentes no cérebro desses animais sofreram uma modificação proporcional devido à morte pela clip_image006falta de alimentação; o filósofo afirma ter sido essa uma experiência fútil e faz uma crítica severa ao barão, afirmando: para que o barão deixou os pobres animais ficarem presos e famintos para sofrer dessa maneira? O filósofo afirma que existem outros caminhos e métodos que podem ser pesquisados e não precisam sentenciar os animais à crudelíssima prática, como fez Von Bibra, que por sua vez, tem muito que ler e aprender nos livros.

 

Schopenhauer termina a crítica afirmando:

  Ninguém que ainda não conheça nem saiba tudo o que está contido nos livros sobre a circunstancia a ser pesquisada tem o direito de praticar vivissecção!

                                                                                 Trad.: E. Brandão e K. Jannini

No mundo contemporâneo não mudou muito esse pensamento científico, continua-se com essa prática cruel, pois muitos cientistas afirmam que se não fossem as pesquisas da experimentação animal, não se teriam conseguido avanços contra enfermidades que acabrunham os seres humanos. Os cientistas lutam há décadas para descobrir uma cura contra muitas doenças, e muitos animais indefesos passam por sofrimentos até que cheguem a óbito, mas sabemos que muitas vezes as pesquisas são fracassadas e não chega a nenhuma conclusão positiva, sentenciando milhares de animais à morte, como se fossem objetos de descarte, sem que tenham o direito de viver.

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Créditos:

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de insultar. Organização e ensaio: Franco Volpi.

Tradução: Eduardo Brandão e Karina Jannini. São Paulo, Martins Fontes, 2005.

 

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Da não cidadania ateniense

por Osvaldo Duarte

Em outro texto (A cidadania ateniense), trouxemos à luz o cidadão ateniense, cumpre-nos agora mostrar o outro lado, isto é, as pessoas que não possuíam o título de cidadão: as mulheres, os metecos, os escravos e os libertos.

mulher

As mulheres

Embora desprovidas do direito de cidadania em Atenas, onde apenas homens (cidadãos) partilhavam entre si o poder decisório das questões atinentes à cidade, as mulheres tinham papel preponderante, era através delas que se transmitia a cidadania, pois, como já dissemos*, para ser cidadão na época de Péricles, tinha de ter pai cidadão e mãe ateniense. O casamento legítimo, o único reconhecido como tal, só acontecia entre o cidadão e a filha de outro cidadão.

O estado matrimonial reconhece-se à que procriou, à que apresentou os seus filhos à frátria e ao demo, as que dão as próprias filhas em casamento. As cortesãs, têmo-las para o prazer; as concubinas para os cuidados do dia-a-dia; as esposas para ter uma descendência legítima e ser uma fiel guardiã do lar.

meteco

Os metecos

Estrangeiros domiciliados na cidade, os metecos, deveriam registrar a sua inscrição no demo[1] para obter seu estatuto pessoal. Era vedado aos metecos a propriedade fundiária, o casamento misto e ter descendentes cidadãos.

Como pessoa, a justiça os protegia menos do que os cidadãos, o que não acontecia com os seus bens. Pagavam impostos ordinários e, em alguns casos, as liturgias[2] (consoante a sua fortuna), e a taxa de residência.

Os metecos instalavam-se onde desejavam e tinham liberdade de culto. Serviam no exército como hoplitas[3], ou na marinha como remadores ou marinheiros.

Havia na cidade, aqueles que não tinham uma ocupação, esses estavam fadados à miséria; mas grande parte dos metecos, pobres e ricos, tinha trabalho regular.

Os metecos atuavam na indústria e no comércio. Era comum também, encontrar metecos cabeleireiros e almocreves. A liberdade comercial era quase absoluta; em Atenas, era exigido dos estrangeiros o pagamento de uma taxa para exercerem o comércio. A exploração do subsolo era a única empresa que não estava nas mãos dos metecos, pois não podiam ter propriedade fundiária; nesse ramo de negócio, geralmente os escravos trabalhavam nas minas, e os concessionários eram os cidadãos. Os metecos desprezavam essa tarefa por considerá-la humilhante e penosa.

escravos

Os escravos

Para os gregos era inconcebível uma sociedade sem escravos O cidadão destinava a sua força e inteligência nos interesses da cidade. Com efeito, para o exercício da cidadania, o ateniense deveria estar livre das ocupações domésticas e dos trabalhos manuais. A servidão era um processo natural, legítimo e necessário para a sobrevivência duradoura de uma sociedade. Os escravos natos existiam, eram os bárbaros.

A condição servil em Atenas era considerada melhor do que a miséria extrema como muitos que viviam à margem da cidade. Os escravos eram alimentados pelos seus senhores e providos do mínimo indispensável à vida humana. Alguns historiadores asseguram, com base em pinturas dos vasos e outras fontes,  que não era incomum a amizade entre senhor e servo. Asseveram-nos ainda, que muitos escravos eram inteligentes e homens dignos, fazendo com que os cidadãos soubessem distinguir entre a condição servil e a pessoa. O escravo que conseguia a sua emancipação tornava-se meteco.

A condição servil tinha três origens: O nascimento, a guerra e a condenação em julgamento. A maioria dos escravos provinha da guerra.

 

liberto

 

Os libertos

Dos diversos modos de manumissão, o mais comum era a obtenção da liberdade através de resgate. E senhor não era obrigado a aceitar o resgate oferecido diretamente pelo escravo, era necessário conquistar a sua benevolência, ou então oferecer uma soma que lhe despertasse o interesse. Geralmente utilizava-se um terceiro na transação, ou seja, o escravo entregava o valor a um terceiro que o comprava do senhor e depois concedia a sua liberdade.

Os libertos, na condição de meteco, geralmente viviam do trabalho no comércio ou na indústria. Era possível encontrar liberto tanto cozinheiro quanto banqueiro. Moravam nos arredores da cidade, nos bairros mais afastados.

* Veja o textoA cidadania ateniense”.

 


1 - Demos eram as divisões territoriais -administrativas .

2 - Despesas públicas destinadas aos mais ricos.

3 - Hoplitas – infantaria pesada.

 

Créditos:

 

CROISET, A. As Democracias Antigas. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1923.

GLOTZ, Gustavo. História Econômica da Grécia. Lisboa, Edições Cosmos, 1973.

KITTO, H. D. F. Os gregos. Coimbra, Armênio Amado, Editor, Sucessor, 1960.

MOSSÉ, Claude. O Cidadão na Grécia Antiga. Lisboa, Edições 70, 1999.

domingo, 2 de junho de 2013

Eudaimonía, a Felicidade Grega

por Osvaldo Duarte

 

 

feliz

O que entendemos hoje por felicidade (eudaimonía) é bem diverso do que os antigos gregos a entendiam como tal. Com efeito, a felicidade para nós hoje é apenas um decalque do que era a felicidade para os gregos. O conceito grego de felicidade, ao menos para os filósofos, estava ligado ao conceito de virtude ou excelência (aretê).

 

Demócrito servia-se de vários termos para designar a felicidade, sendo que para ele, felicidade era algo interno, da alma, e não se encontrava na posse de bens materiais:

 

A felicidade e a infelicidade são fenômenos psicológicos.

 

A felicidade não consiste na posse, nem de rebanhos, nem de ouro, porque a causa da felicidade reside na alma.

 

As forças físicas e as riquezas não dão a felicidade, que só é dada pelo caráter e pela sabedoria.

                                                                                                 Trad. P. Gomes

 

Para Platão, ser feliz é viver bem e ser justo.

 

Logo, a alma justa e o homem justo viverão bem, e o injusto mal.

Mas sem dúvida o que vive bem é feliz e venturoso, o que não vive bem, inversamente.

Logo, o homem justo é feliz, e o injusto é desgraçado.

Contudo, não há vantagem em ser desgraçado, mas sim em ser feliz.

                                                                                                                         Trad. M.H.R.Pereira

 

... para os deuses a vida mais agradável * é também a mais justa.

                                                                                                                              Trad. C.A.Nunes

 

 

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Aristóteles considerava a felicidade como  excelência  da ação contemplativa.

A felicidade como fim último de todas as ações humanas, e tem como sentido “o melhor de tudo”. A felicidade é o supremo bem prático.

 

O estagirita distribui os bens em três classes, a saber:

Bens exteriores, por outro lado, os bens que dizem respeito à alma humana e, por último, os do corpo próprio.

 

Os bens que concernem à alma humana são os mais autênticos e os mais extremos. Mas a felicidade são as ações e o exercício das atividades concernentes à alma humana. Quem é feliz vive bem e age bem.

 

A felicidade é então o bem supremo, o que há de mais esplendoroso e o que dá um prazer extremo.

 

A felicidade é uma atividade de acordo com a excelência e da melhor parte do humano, essa atividade é, segundo Aristóteles, contemplativa.

 

 

Nós pensamos também que a felicidade tem de estar misturada com o prazer, porque a mais agradável de todas as atividades que se produzem de acordo com a excelência é unanimemente aclamada como a que existe de acordo com a sabedoria. Parece, então, pois que a filosofia possui a possibilidade de prazer mais maravilhosa que há em pureza e estabilidade...

 

Enquanto humanos, temos necessidades vitais, mas uma vez suprida essas  necessidades, o sábio se volta para a contemplação, o que possibilita a sua independência auto-suficiente.

 

O sábio é capaz de criar uma situação contemplativa sozinho apenas a partir de si próprio e em si próprio, e quanto mais sábio for mais facilmente o consegue fazer.

                                                                                                                      Trad. A. C. Caeiro

 

 

Léon Robin define a felicidade grega como algo parecido com a “boa sorte” atribuída por uma graça divina; há um daimon que acompanha homem grego por toda vida como guardião da sua sorte, seguindo-o até o Juízo.

Platão, na República, recupera, em parte,  este mito através de Er.

Para os gregos, a felicidade se dava numa completa realização da natureza humana. A essência da moralidade como fim último tanto na obtenção como na manutenção da felicidade.

 

 

* Agradável entenda como feliz.

 

 

Créditos

 

ARISTÓTELES, Ética a Nicómano. Trad. António de Castro Caeiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2012.

PLATÃO. A República. Trad. Maria H. da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

             . Leis, vol. XII-XIII. Trad. Carlos Alberto Nunes. Pará, Universidade Federal do Pará, 1980.

ROBIN, L., A Moral Antiga. Porto: Edições Despertar, [19??]

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A superioridade do homem na filosofia Agostiniana


por Leandro Morena

clip_image001Seguindo a tradição da Bíblia, o filósofo Santo Agostinho (354-430) reafirma que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Agostinho explica que o homem é semelhante a Deus, principalmente, e, sobre tudo, pelo intelecto, pois este é a alma. A filosofia agostiniana coloca a singularidade da espécie homo sapiens como uma “divindade”, e assim, este pode usufruir de todas as outras espécies como bem entender.
Na obra de Agostinho, A Cidade de Deus, em várias passagens, fica muito evidente essa superioridade.  Agostinho explica que Deus ao criar o homem, um ser racional, permitiu que o mesmo dominasse todas as outras espécies: os peixes, as aves, os répteis, considerados irracionais. Para ele, essa é a ordem natural das coisas.  O filósofo afirma que o homem tem que dominar apenas as espécies irracionais, e não pode dominar a si mesmo, isto é, a sua espécie.clip_image001[4]
             Agostinho declara que o homem é tão perfeito, pois a beleza do corpo humano, os órgãos dos sentidos bem estruturados, a postura do homem erguida para o céu (essa posição mostra que o homem tem que desejar as coisas do alto), a bondade, a capacidade da linguagem, mostra-nos o quão existe de Deus no corpo humano e tudo isso tão bem elaborado, para servir a alma racional nessa criação magnífica. Seguindo a tradição da filosofia platônica, (ver o artigo publicado nesse blog: O pensamento Platônico acerca da Transmigração das almas), diferentemente do homem, continua Agostinho, os animais irracionais, além de não possuírem uma alma imortal, estão curvados para a terra, o que consolida, mais ainda, um distanciamento dessas espécies com o criador. Ele vai afirmar que mesmo alguns animais por serem mais fortes e ágeis do que o homem, não os faz superiores, pois na escala da natureza, o homem é a perfeição nobre, única e exclusiva da criação.
A singularidade do homem na filosofia agostiniana vai estender-se pelo período medieval, onde muitos pensadores, citando o exemplo do filósofo São Tomás de Aquino (1225-1275), continuarão com a ideia da superioridade da vida humana, e estender-se-á na Filosofia Moderna, ficando evidente, principalmente nas filosofias cartesiana e espinosana.

No quadro abaixo, o pensamento agostiniano das principais diferenças que tornam o homem um ser superior:

Homem
Demais espécies
Possui intelecto, ser racional
Irracionais
Anatomia perfeita (corpo erguido para o céu)
Anatomia imperfeita (corpo curvado para a terra)
Possui alma imortal
Não possui alma
Usufrui da natureza (pois é a ordem natural)
Existem unicamente para servir o homem
Imagem e semelhança do Criador
------------------------------------------------------

 Créditos:
AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus contra os Pagãos, vol. II, 4º Ed. Trad. Oscar Paes Leme. Editora Vozes, São Paulo, 2002.










terça-feira, 16 de abril de 2013

Epicteto, o Escravo Filósofo (50 - 138 d.C.)

por Osvaldo Duarte
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Breve notícia
 
Mestre Epicteto nasceu em Hierápolis na Frígia entre 50 e 60 d.C. Enquanto escravo frequentou as lições de Caio Musônio Rufo, filósofo estóico, cuja Escola ficava em Roma. Da sua condição servil, originou o cognome Epicteto (Escravo). Ainda quando jovem, foi torturado pelo seu senhorio que o deixou coxo. O filósofo, desprendido de bens materiais, costumava estudar sob a luz de um candeeiro de barro, pois o de metal fora roubado, o que não pôde deixar de queixar-se a si mesmo: “Ainda tinha em minha casa algo que pudesse despertar a cobiça”. Como escravo, Epicteto foi preceptor dos filhos de Epafrodito, confidente de Nero, sendo que mais tarde seu amo o libertou.
 
Entre 88/93 d.C. Domiciano publicou um decreto expulsando os filósofos de Roma, A. Gélio nos informa:
 
Durante o consulado de Caio Fânio Estrabão e Marco Valério Messala, publicou-se um decreto do senado sobre os filósofos e sobre os retores. “O pretor Marco Pompônio consultou o senado. Porque as palavras se produziram sobre os filósofos e sobre os retores, desse fato assim consideraram o pretor Marco Pompônio advertisse e cuidasse que em Roma, como lhe parecesse conforme a sua fidelidade e conforme a república, eles não ficassem”.
                                                                                                        Trad. José R. Seabra F.
 
Após o decreto, Epicteto já liberto, retirou-se para a Nicópolis no Épiro, fundando aí a sua prestigiosa Escola. Ignoramos a data da sua morte, mas é assente que ocorreu por volta do ano 138 d.C..
Sua vida foi sempre celibatária e pobre.
 
Suas Lições
 
Sua Escola foi famosa na época, atraindo ouvintes de vários lugares, todos entusiasmados pelas lições do Mestre. As aulas eram orais e com rigor lógico; ensinava dialogando à maneira de Sócrates, onde não faltava, é claro, uma pitada de ironia. Lia-se um texto de algum filósofo do estoicismo primitivo e comentava-o, procedendo a exegese moral. Dos seus alunos eram exigidos exercícios escritos e orais. Expressava-se com carisma, e valendo-se da koinê, isto é, da linguagem comum do povo.
 
Para progredir em Filosofia, seus discípulos eram orientados à modéstia e a terem paciência, pois, filósofo se faz com o tempo e não da noite para o dia.
 
Como bom estóico, tinha como princípio a moral; exigia de todos que frequentavam as suas lições que fizessem o exame de consciência, não no sentido de confissão, ou de punição, mas para rever suas atitudes e procurar melhorá-las com o intuito de atingir a autárkeia (domínio de si – auto-suficiência).
Sua filosofia era da práxis, ou seja, tinha por objetivo a prática na vida cotidiana.
Epicteto foi um grande Filósofo, Educador e Conhecedor da alma humana.
 
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Sua obra
 
Assim como Sócrates, Epicteto não deixou nada escrito. O que nos chegou foram as Diatribes (ao que parece serem oito livros, mas somente quatro restaram), e o Enchiridion (Manual - Máximas extraídas das Diatribes), obras  que são anotações de um dos seus discípulos Flávio Arriano, grego de nascimento, mas com cidadania romana, que assim nos adverte:
 
Não redigi as lições de Epicteto (...). Mas tudo o que ouvi dizer, transcrevendo, o quanto possível com as mesmas palavras, tentei conservar para o futuro como recordação do seu pensamento e do seu franco falar.
 
 
Sua Filosofia
 
Estóico como Sêneca e Marco Aurélio, sua filosofia é eminentemente moral, mas no caso,  com acentuada preferência pela filosofia de Crísipo na tentativa de recuperar a filosofia primitiva do Pórtico, e nem por isso deixou de absorver a filosofia do seu tempo e, com muita cautela, também acolheu a mensagem de Diógenes, o Cínico.
Sua ética tem como princípio a clara distinção entre bens, males e indiferentes:
Os bens são as virtudes e as coisas que participam dela. Os males são os vícios e das coisas que participam deste, ou seja, contrários à virtude. Os indiferentes são as coisas externas e referentes ao corpo, tais como: saúde, vida, morte, prazer, pena...
 
As coisas que acontecem em nossa vida dividem-se em duas classes, a saber:
 
I) Das coisas que estão em nosso poder - O bem e o mal, pois ambos dependem da nossa vontade, estão em nosso poder fazer ou não.
 
II) Das coisas que não estão em nosso poder – Tudo o que não depende da nossa vontade.
 
Para lançar luz, recorremos ao Manual:
 
Das coisas que há no mundo, umas estão em nossa mão, e outras não.  Em nossa mão está a opinião, e suspeita, e apetite, e aborrecimento, e desejo, e numa palavra, todas as obras que são nossas. Não estão em nossa mão o corpo, a fazenda, nem a honra, nem o senhorio, nem em efeito nenhuma das que não são obra nossa.
                                                                  Trad. Frei Antonio de Souza
 
As coisas que dependem de nós são por natureza livres, sem impedimento, isentas de obstáculos; e as que de nós não dependem são inconsistentes, servis, susceptíveis de impedimento, estranhas.
                                                                                                                  Trad. Pedro Alvim
 
Não queiras que as coisas, que sucedem, sejam sempre à tua vontade; mas se queres acertar, quere-as como elas vierem. A doença impedimento é ao corpo, mas não ao teu instituto, se tu mesmo não queres: o ser manco, impedimento é dos pés, do teu intento não. E assim, se em tudo o que suceder, fizeres esta conta, acharás que as coisas serão impedimento a outras, e não a ti.
                                                                  Trad. Frei Antonio de Souza
   
Não exijas aconteça como tu desejas aconteça. Antes queiras aconteçam as coisas como acontecem – e quão feliz, então, não serás!
                                                                                                                  Trad. Pedro Alvim
 
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Influência da sua Escola
 
Seu Manual exerceu forte influência entre pagãos e  cristãos que o admiravam. Com efeito, o Manual também foi adotado pelo monaquismo, para uso dos monges eremitas do Monte Sinai. São Bento utilizou-se de alguns preceitos para os monges do Ocidente. Mais tarde, Pascal foi também um grande admirador de Epicteto, o escravo Filósofo.
 
Créditos:
 
EPICTETO, Manual de Epitecto: Máximas Diatribes e Aforismos. Lisboa: VEGA, 1992.
GÉLIO, A., Noites Áticas. Trad. José R. SEABRA F.. Londrina: Eduel, 2010.
PETERS, F. E., Termos Filosóficos Gregos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1977.
REALE, G., Renascimento do Platonismo e do Pitagorismo. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
ULLMANN, R.  A., O Estoicismo Romano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.