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Pansophia

Pansophia

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O pensamento Platônico acerca da Transmigração das almas


por Leandro Morena
 Durante toda a trajetória da história da filosofia observou-se que muitos sistemas filosóficos preocuparam-se em dar ênfase ao homem. Desde os tempos primordiais, filósofos discutiram e debateram: O que é o homem? De onde veio? Para onde vai? Observou-se também que muitos desses sistemas mostraram a inferioridade para com as outras espécies: animais e vegetais, vistos como seres inferiores. Os escolásticos mostram-nos isso e no pensamento moderno também. Só no Pensamento Contemporâneo  é que essa discussão ganhou maior evidência.
clip_image002Mas nesse artigo eu vou frisar o pensamento do filósofo grego Platão no que diz respeito da Transmigração das almas ou Metempsicose. Essa ideia  já existia no Orfismo e no Pitagorismo, e Platão aceitou-a muito bem. Na sua obra Timeu,  mostram-se passagens que explicam para onde vão as almas que se comportaram de maneira errada durante a vida, depois que morrem. Segundo o filósofo, os homens que nunca filosofaram e nunca compreenderam a natureza do céu por não usarem a inteligência, estes por castigo, desses vícios, na próxima vida habitarão o corpo de animais ferozes (leão, tigre, etc.). O curioso é que o autor explica o porquê que esses animais se locomovem com as quatro patas para o chão. Os membros anteriores e a cabeça (do homem) foram direcionados para o chão, alongou-se o crânio que adquiriu vários formatos conforme a vadiagem que o ser humano fez ao longo da vida. Platão explica que esse tipo de ser humano nasceu com quatro patas ou mais pelo motivo que a divindade fez com que os seres humanos de pouca inteligência tivessem maior base de sustentação para arrastar-se para a terra. O filósofo vai além, afirmando que os seres humanos que foram mais atrasados que os citados acima, por castigo dos deuses, nasceriam sem patas para que se rastejassem com o corpo todo pela terra (cobra, centopéia, entre outros).  Ao afirmar sobre os animais marinhos, Platão radicaliza mais ainda essas espécies, chamando-os de estúpidos e ignorantes. Aos que as almas contaminadas por toda a sorte de faltas nascerão animais cujo habitat é na água, as divindades castigaram-nos, de tal maneira, que esses animais nem são dignos de respirar o ar puro, vivendo a aspirar à água lodosa das profundezas dos oceanos.
Esse pensamento, evidentemente, teve influencia em vários outros pensamentos posteriores ao platonismo.
clip_image004E no século XXI esse pensamento não mudou muito, pois é comum observar na mídia que os animais são usados em frases negativas para determinar um erro que um ser humano comete ou quando a mente humana atinge um grau de violência extrema, e sendo assim compara-o a um animal. Vou citar algumas frases grotescas e especistas que não param de ser usadas na atualidade:
“Esse assassino é um animal, ou é pior que um animal”!
Ser humano de sexo feminino quando comete algum ato errôneo:
Você é uma vaca, ou galinha, ou cadela, ou cachorra, ou piranha, ou vespa, ou cobra, ou serpente entre outros.
Ser humano de sexo masculino:
Você é um cachorro, ou urso, ou rato, ou cobra e serpente, ou cavalo, ou burro, ou asno entre outros.
Frases diversas:
Esse cara é mais assassino que um lobo, ou um leão!
Você cuspe cobras e lagartos para mim!
Você é uma lesma, ou uma besta selvagem!
Você vale menos que um cachorro!
clip_image006A mídia vem à tona ao comparar assassinos, torturadores, sequestradores, estupradores, pedófilos, corruptos, os bandidos que cometem crimes pela internet, entre outros  animais, como se isso fosse algo de factual. Não entendo como hoje em dia a sociedade pode admitir isso: homens que cometem coisas erradas sejam comparados a animais, pois esses homens que cometem erros são apenas seres humanos. Usam-se essas frases especistas para mostrar que a raça humana é perfeita e quando um ser humano ultrapassa a linha do senso comum e age de maneira que não vai de acordo com a lei, não é mais considerado humano, mas sim puro animal.
 No tempo de Platão, foi muito comum pensar que o ser humano tivesse algo de diferente  se comparado as demais espécies, pois nesse tempo não se tinham as informações e as pesquisas que se tem hoje sobre a inteligência animal, mas na sociedade atual, que temos milhares de informações pela internet, é uma obrigação rever esses conceitos e admitir que os homens que cometem coisas erradas são verdadeiramente homens; e cabe a filosofia discutir a ofensa moral que é denegrir a imagem dos animais e deixar para os psicólogos e psiquiatras que entendam os atos errôneos que seres humanos cometem.
Créditos:
PLATÃO. Timeu. Diálogos. Trad. Carlos Alberto Nunes. Universidade Federal do Pará, 1977.

domingo, 19 de outubro de 2014

Giovanni Reale (1931-2014)

por Leandro Morena

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O mundo filosófico perdeu, no último dia 15 de outubro, o filósofo, historiador, tradutor, escritor e professor italiano Giovanni Reale. Reale nasceu na região da Lombardia, Itália, em 1931, e tornou-se doutor em Filosofia pela Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão, e foi nessa universidade que ficou como professor emérito. O filósofo tornou-se referência mundial por ter se aprimorado no pensamento grego antigo, principalmente numa nova interpretação do filósofo grego Platão, tornando-se num dos maiores especialistas desse filósofo. Reale criou o Centro Internacional de Pesquisas sobre Platão e as raízes platônicas do pensamento da civilização ocidental. Destaca-se também pela tradução da obra de Aristóteles, discípulo de Platão, Metafísica e diversos livros da História da Filosofia da antiguidade a contemporaneidade.

Algumas obras de Reale traduzidas para a língua portuguesa:

·         História da filosofia grega e romana I - Pré-Socráticos e Orfismo

·         História da filosofia grega e romana II - Sofistas, Sócrates e socráticos menores

·         História da filosofia grega e romana III - Platão

·         História da filosofia grega e romana IV - Aristóteles

·         História da filosofia grega e romana V - Filosofias helenísticas e epicurismo

·         História da filosofia grega e romana VI - Estoicismo, ceticismo e ecletismo

·         História da filosofia grega e romana VII - Renascimento do platonismo e do pitagorismo

·         História da filosofia grega e romana VIII - Plotino e neoplatonismo

·         Metafísica de Aristóteles, volumes 1, 2 e3

·         História da filosofia 7 volumes

Geovanni Reale, com seus 83 anos completos em 15 de abril, seguia na ativa. Um dos seus últimos trabalhos, juntamente com Dario Antiseri, é que estava terminando a correção: o manual de "Cem Anos de Filosofia. De Nietzsche aos Nossos Dias", com previsão de publicação para janeiro de 2015 e com tradução para o espanhol, português, romeno e croata.  

A contribuição de Reale para a filosofia é infinita, pois deixará uma vasta obra intelectual importante para as próximas gerações de pensadores.

Com sua morte Reale eternizou-se na história da humanidade. 

 

Fonte:

UOL Notícias

Paulus Editora

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Sobre a Alma - Demócrito


por Osvaldo Duarte

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Todo Ser é constituído por elementos primeiros indivisíveis - os átomos, esses  são por sua vez, elementos infinitos com formas infinitas e estão em eterno movimento no vazio infinito, ora agregando-se (geração), ora desagregando-se (destruição). Os átomos são substâncias tão pequenas que escapam aos nossos sentidos, mas quando agregam-se entre si, produzem todas as coisas que existem, as quais vemos e percebemos com os demais sentidos. Considerado como uma concepção monista, Alma e corpo tornam-se uma unidade indissolúvel enquanto homem, e não como dicotomia, isto é, como o corpo sendo apenas o receptáculo, prisão da Alma.
Platão nos diz através de Timeu: “que de todos os seres é a alma o único capaz de adquirir inteligência; mas a alma é invisível. (...) O amante da inteligência e do conhecimento deve necessariamente procurar primeiro as causas que pertencem à natureza inteligente (...)”.
Sendo a alma como um princípio dos animais, seu conhecimento está entre as coisas mais belas e, por isso mesmo, que filósofos antes mesmo de Aristóteles se preocuparam com semelhante questão.
Demócrito foi um desses filósofos que explicaram a Alma (Psychê):
“... Demócrito declara que a alma é algo quente ou uma espécie de fogo, pois, havendo infinitos átomos e formatos diz que os de forma esférica são fogo e alma (...)”.
“(...) os de forma esférica são alma. Sobretudo porque tais fluxos podem tudo permear e, por moverem as coisas restantes, que se movem também. Disso supõe que a alma fornece aos animais o movimento. E por isso também o que define o viver é a respiração. Pois, como o ar circundante comprime os corpos, expulsando os formatos que, por nunca repousarem, fornecem aos animais o movimento (...)”.
É bem possível que Demócrito tenha identificado a alma como átomos redondos e lisos pela grande mobilidade dos mesmos, o que os levariam a escapar do corpo com facilidade, coube à respiração a incumbência de retê-los dentro dele por meio de uma corrente de ar e de renová-los constantemente. Ao término dessa missão, os átomos dispersam-se definitivamente (morte). Dado ao calor vital dos membros superiores, e ainda, ao incessante movimento próprio à chama, é que Demócrito tenha estabelecido esses átomos com os do fogo, (Gomperz).
Devemos lembrar que para os gregos, o movimento era compreendido como parte fenômeno da vida, e não se trata aqui apenas o movimento de locomoção, mas de qualquer movimento, assim, toda ação e todo pensar é movimento.
Pelo que observa Aristóteles, para Demócrito, Alma e Intelecto são a mesma cousa, pois, pensar significa perceber as próprias sensações, numa palavra, ter a percepção do sentir, o que seria ter a consciência das mudanças do corpo:
“Leucipo e Demócrito chamas às sensações e aos pensamentos mudanças do corpo... As sensações e o pensamento nascem do chegar das imagens (eidola) do exterior, porque nem essas nem este sobrevêm a alguém sem que cheguem as imagens (Stobeu).”

Créditos/Obras consultadas:
ARISTÓTELES. De Anima. Trad. Maria C. Gomes. São Paulo: Editora 34, 2006.
CASERTANO, G., Os Pré-Socráticos. Trad. Maria da Graça G. Pina. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
GOMPERZ, T. História da Filosofia Antiga, Tomo I. Trad. Joé I. C. M. Neto. São Paulo, Ícone Editora, 2011.
HEIDEGGER, M. Platão: O Sofista. Trad. M. A. Casanova. Forense Universitária. Rio de Janeiro, 2012.
MANDOLFO, Rodolpho. O Pensamento Antigo Vol. I. São Paulo: Ed. Mestre Jou S/A,  1966.PLATÃO. Diálogos, Timeu-Crítias-O 2º Alcebíades-Hípias Menor, Trad. C. A. Nunes. Pará: Univ. Fed. do Pará, 1977

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Frege e o nascimento de uma nova lógica

por  Leandro Morena

clip_image001Gottlob Frege (1848-1925) nasceu na cidade de Wismar, Alemanha. O seu trabalho foi voltado para a filosofia da matemática e lógica. Destacou-se como o criador da lógica matemática.

O projeto de Frege consistiu na redução da aritmética à lógica e poderia ser criado em dois objetivos: Primeiro visa definir toda expressão aritmética em termos lógicos com a finalidade de mostrar que toda e qualquer expressão aritmética vai significar o mesmo que uma expressão lógica determinada. Já o segundo objetivo vai depender dos resultados obtidos pelo anterior, se o resultado for positivo, vai mostrar que a proposições lógicas obtidas podem ser deduzidas das leis lógicas imediatamente evidentes.

Para o cumprimento desses objetivos, Frege vai mostrar que a lógica clássica está duplamente insuficiente, pois, em primeiro lugar, ela está incompleta, ou seja, as relações e propriedades aritméticas seriam relações e propriedades lógicas muito mais complexas do que as que a lógica clássica foi capaz de representar.  Já a segunda deficiência da lógica clássica é o fato dela de não ser suficientemente formalizada, e com isso ela agrega o contágio da imprecisão da linguagem comum. Com essas deficiências afirmadas por Frege, fez com que ele elaborasse uma nova lógica.

Na obra Conceitografia (publicada em 1879), Frege vai criar uma linguagem formular de pensamento puro, que vai ser imitada na linguagem aritmética. Essa nova lógica vai ser comportada por, uma nova definição de conceito, que conduzirá numa nova maneira de analisar proposições, à ampliação das possibilidades de expressão de propriedades e relações lógicas, e em conseqüência disso, a ampliação das possibilidades de definição de propriedades e relações em geral. Na elaboração da nova lógica, o filósofo inseriu parte da matemática que conhecemos como Teoria dos Conjuntos.

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Essa nova lógica vai expressar-se através de uma linguagem simbólica artificial, pois a linguagem comum que a lógica clássica utiliza-se é indevida para explicar com precisão propriedades e relações lógicas, em virtude de sua gramática não se orientar por necessidades humanas citando o exemplo da estética.  Uma dedução em linguagem comum inclui lacunas e premissas subentendidas que visam dificultar a importância das conclusões logicamente legítimas. Como afirma Luís Henrique, a conceitografia de Frege, vai ao contrário, pois contém um conjunto bem determinado de regras, dedução e de axiomas lógicos, supostamente claros.  Por isso a conceitografia torna-se gramaticalmente impossível construir deduções ilegítimas e toda a ilegitimidade pode ser facilmente verificada com uma precisão segura, visto que, à medida que o conjunto de passagens permitidas é pequeno e as regras que comandam são formais.  Com o resultado disso, a dedução torna-se um cálculo, uma série de operações sobre símbolos. Vai ser importante frisar que para Frege, isso é apenas uma solução útil e acidental. Segundo Luís Henrique, para Frege, os sinais de conceitografia têm significado e o conjunto de axiomas e regras é estabelecido de acordo com esse significado. Ocorre apenas que se pode operar com os símbolos como se fossem vazios, graças ao artifício da formalização.

Mas, se a progressão lógica se disser de outro modo, tornar-se-á fequentemente necessário exprimi-la por palavras. Faltam, pois à linguagem de fórmulas de aritmética, expressões para conexões lógicas, e por isso ela não merece o nome de conceitografia em sentido pleno.

                                     Tradução: Luís Henrique dos Santos

 

Mas a pergunta que fica é quais são as vantagens da lógica do Filósofo Frege comparada à lógica clássica?  Segundo Luís Henrique são duas as vantagens da lógica de Frege: a ampliação de seu campo e a formalização. A primeira é fundamental, pois sem a nova teoria do conceito e a incorporação da teoria dos conjuntos, sem esses dois elementos primordiais, jamais seria possível reduzir a aritmética à lógica. No caso da formalização, não pode dizer o mesmo, pois não é indispensável à construção de uma linguagem artificial, bastaria usar a linguagem comum com algumas correções e acrescentamentos que ajuntassem as vantagens da conceitografia. O objetivo de Frege foi à ampliação da lógica, visto que a formalização tornara as coisas mais simples.   

CRÉDITOS:

FREGE, Gottlob. Os Pensadores.Tradução: Luís Henrique dos Santos. Editora Abril, São Paulo, 1983.

domingo, 8 de junho de 2014

Schopenhauer e a crítica ao homem

por Leandro Morena
Os pensadores gregos colocaram o homem como parte da Physis. No pensamento Medieval o homem tornou-se um ser supremo, pois foi feito à imagem do seu criador, que, por sua vez, ofereceu toda a natureza para o homem usufruir. No pensamento moderno, o egocentrismo floresceu e o mecanicismo cartesiano idealizou o homem como uma máquina perfeita. O homem “deixou” a Physis, dominou toda a natureza, e, por fim, dominou o próprio homem.
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Ao longo da história da humanidade temos observado o poderio dos papas, reis, imperadores, príncipes e tiranos, seres humanos que submergem num titulo que os engrandece e torna-os seres “divinos” e intocáveis, que não passam de doxômanos, fugindo da sua originalidade que é apenas um ser humano como qualquer outro.
O filósofo Francês Étienne de La Boétie (1530-1563) na obra O Discurso da Servidão Voluntária coloca a questão de como determinado povos submetem-se à vontade de uma única pessoa, no caso, o tirano.  La Boétie afirma que tiranos não passam de, simplesmente, seres humanos com suas doenças, fraquezas, medos, vícios e etc.
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clip_image003                O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) faz uma crítica severa ao homem, que de certa maneira há uma conexão com o que La Boétie anteriormente expôs.  Schopenhauer vai focar sua crítica aos vícios que estão impetrados na natureza humana, quebrando a superioridade do homem, colocando-o num reducionismo solidificado que vai jogá-lo como uma anomalia da natureza. Diferentemente dos filósofos Platão (427 a.C. -347 a. C.) e Santo Agostinho (354-430), estes, por sua vez, afirmaram que a posição do homem ereta torna-o mais próximo da divindade e o faz querer as coisas superiores, tornando-o superior as demais espécies, pois os animais são curvados para baixo e por isso inferiores (ver os artigos: O pensamento Platônico acerca da Transmigração das almas e a Superioridade do homem na filosofia Agostiniana),  Schopenhauer vai pensar contrariamente, e afirma sua admiração em observar como os animais andam da forma que a natureza os fez. É fato que Schopenhauer quis afirmar que os animais não fugiram da sua animalidade.
Existe no mundo apenas um ser mentiroso: o homem. Todos os outros seres são verdadeiros e sinceros, pois mostram-se abertamente como são e manifestam o que sentem. Uma expressão emblemática ou alegórica dessa diferença fundamental é o fato de que todos os animais andam em seu aspecto natural, o que contribui bastante para a impressão agradável que se tem ao vê-los; especialmente quando se trata de animais livres; tal visão enche meu coração de alegria. Em contrapartida, devido a sua vestimenta, o ser humano tornou-se uma caricatura, um monstro; o simples fato de vê-lo já é algo repugnante que se destaca até pelo branco de sua pele, não natural a ele, e pelas conseqüências repulsivas da sua alimentação a base de carne, que vai contra a natureza, bem como das bebidas alcoólicas, do tabaco, dos excessos e das doenças. Ele surge como uma mácula da natureza.
                                      
                          Tradução: Eduardo Brandão e Karina Jannini

O pensamento contemporâneo quebrou esses grilhões do egocentrismo e mostra-nos que o homem, cada vez mais, tem genes muito parecidos com os das outras espécies, diminuindo o distanciamento que por séculos vigorou.

Doravante vamos colocar as questões do homem do século 22, ele será inserido em qual lugar? Ele voltará fazer parte da Physis como os gregos antigos afirmavam? E a religião, terá os olhos voltados para as outras espécies?  E o domínio de poucos sobre muitos, será um fato consumado, ou a submissão continuará?    

Créditos:
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. Tradução: Ivone Castilho Benedetti. Martins Fontes, São Paulo, 2002.

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de insultar. Organização e ensaio: Franco Volpi. Tradução: Eduardo Brandão e Karina Jannini. Martins Fontes, São Paulo, 2005.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O pensamento do filósofo Francesco Patrizzi

 

por Leandro Morena

 

clip_image001Francesco Patrizzi (1529- 1597) nasceu em Cherso. É considerado um filósofo renascentista neoplatônico, pois suas obras estão calcadas no pensamento platônico. No ano de 1576 começou ensinar filosofia platônica na cidade de Ferrara, e ficou nela até o ano de 1593, pois foi chamado em Roma para continuar com o ensino e a divulgação do platonismo, cidade essa que ficou até falecer.

Das principais obras de Patrizzi, destacam-se duas, a saber: Discussiones Peripateticae e a Philosophia Nova. A Discussiones Peripateticae trata-se de uma obra que vai contra o pensamento aristotélico, pois Patrizzi considera esse pensamento um inimigo da fé religiosa, pois para ele o aristotelismo vai negar omnipotência divina e o governo divino, esse pensamento é uma heresia para a ideologia do cristianismo.

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Patrizzi vai criticar fortemente os escolásticos, afirmando que estes não são verdadeiros filósofos pelo fato que apenas reformularam a filosofia aristotélica, sem preocuparem-se de conhecer as coisas tal como são; crítica essa que vai estender-se, principalmente, para o pensamento de Tomás de Aquino (1225-1274), pois este levou à tona o pensamento aristotélico. Em suma, Patrizzi vai empenhar-se para destruir a filosofia de Aristóteles. Na segunda obra Philosophia Nova, o filósofo vai focar o seu objetivo para a reconstrução de uma filosofia platônica que vai servir de alicerce à fé cristã. Ele vai trilhar o caminho a renovação e defesa do cristianismo através do retorno às doutrinas e crenças orientais: pitagóricas e platônicas. Dedicou essa obra ao Papa Gregório XIV (1535-1591) com o intuito do mesmo decretar que em todas as escolas cristãs fosse ensinada a sua filosofia. Ele pensava que com essa ação ocorreria uma transformação na sociedade e a volta dos protestantes na fé cristã. 

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                A obra Philosophia Nova vai dividir-se em quatro partes:

1.       A panaugia ou doutrina da luz;

2.       A panarchia ou doutrina do primeiro princípio de todas as coisas;

3.       A panpsichia ou doutrina da alma, e;

4.       Pancosmia ou doutrina do mundo.

Segundo Abbagnano, Patrizzi vai afirmar como primeiro princípio o Uno, e este, por sua vez, é a causa primeira, absoluta e incondicionada e é qualificado como o bem. Do Uno distingue-se a unidade, que é gerada a partir dele, e a unidade os outros graus do ser até aos menos perfeitos: a sabedoria, a vida, o intelecto, a alma, a natureza, a qualidade, a forma e o corpo; esse conjunto destas nove ordens da realidade é que constitui o universo todo.   Para Patrizzi, o conhecimento humano é um ato de amor que tende voltar à unidade original, suprimindo a separação entre os elementos do ser, isto é, a união com o objeto cognoscível e incide no ato de amor pelo qual o homem tende para o objeto, buscando abolir a distância que o afasta deste último.  A pergunta é: como identificar o intelecto cognoscitivo com o objeto?  Isso só é possível com base numa identidade de natureza entre sujeito e objeto. Se o sujeito é alma e vida, consequentemente, o objeto também é alma e vida. O filósofo vai defender fortemente a animação universal das coisas, ou seja, o pampsiquismo que é o único princípio adequado a explicar a sua ligação no mundo, a atração que as conecta até formarem o todo e torná-las entráveis ao intelecto humano.   

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Créditos:

ABBAGNANO, Nicola. História da filosofia vol. V, 2º Ed. Tradução: Nuno Valadas e Antônio Ramos Rosa. Editorial Presença, Lisboa, 1978.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A filosofia de Leucipo


por  Leandro Morena

clip_image002Leucipo foi um filósofo grego, pouco se sabe sobre a sua vida, pois não há referências do exato local do nascimento.  Provavelmente tenha vivido no século V a.C. e tenha nascido na cidade de Abdera, ou Eléia, ou Mileto. A existência de Leucipo foi colocada em dúvida, pois o próprio filósofo Epicuro (341 a.C. - 270 a.C.) afirma que nunca houve um filósofo com esse nome e alguns historiógrafos reafirmam isso; outros, por sua vez, afirmam que há evidências concretas de que o filósofo existiu. Para o filósofo Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), Leucipo foi o criador do atomismo, e o filósofo Demócrito (460 a.C.-370 a.C.) foi seu discípulo, este, por sua vez, detalhou a teoria do atomismo.  Raramente encontram-se escritos de Leucipo separado de Demócrito, pois nas referências que são feitas dele estão sempre juntas com o sucessor. Foi adepto da filosofia do grego Parmênides (530 a.C. - 460 a.C.), apesar de pensar diferente do mesmo, pois este considerava o universo como: uno,  inerte, não-gerado e limitado e não aceitavam que ocorresse  investigar a respeito do que não existe,  Leucipo, todavia,  afirmava que existe de elementos infinitos e em eterno movimento, como também uma interminável  quantidade de formas,  chegando a conclusão de que a geração e a mudança são incessantes entre as coisas que existem.
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Segundo Barnes, Leucipo afirmava que o ser existe quanto ao não-ser e que ambos estão num mesmo patamar quando causadores das coisas que vem a ser.  Concluiu que a substância do átomo é dura e cheia e que esta era ser e conduzida pelo vazio, ao que nomeava não-ser e que existe de maneira idêntica ao ser.
Mondolfo brinda-nos com a passagem descrita por Aristóteles na obra Metafísica Livro I, sobre as diferenças entre átomos na concepção de Leucipo:
Do mesmo modo daqueles que crêem ser única a substância... subjacente,  e extraem todo o resto dos acidentes desta substância...assim também dizem que as causas de todas as coisas  são as diferenças (entre os átomos). E dizem que essas são três: a forma, a ordem e a posição: pois afirmam que o ser não se diferencia senão por proporção, contato e conversão: ora, a proporção é a forma, o contato é a ordem e a conversão é a posição.  Por tanto, A difere de N pela forma, AN da NA pela ordem, Z de N pela posição.
Tradução: Lívio Teixeira


Créditos:

MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento Antigo. Trad. Lívio Teixeira. Editora Mestre Jou, São Paulo, 1964.
SANTOS, José Trindade. Antes de Sócrates. Gradiva, Lisboa, 1992.
BARNES, Jonathan. Filósofos Pré-Socráticos. Trad. Julio Fischer. Ed. Martins Fontes, São Paulo

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Pensamento do filósofo Alcmeão


por Leandro Morena

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Para o filósofo grego Alcmeão (Ἀλκμαίων) de Crotona tudo que é relacionado às coisas humanas estão interligados de tal maneira, vem em pares dos opostos. Embora tivesse um pensamento que se assemelha em muito à filosofia dos Pitagóricos, pelo qual estes afirmavam: que as coisas existem a um conjunto determinado de opostos, defendia que essa dicotomia, ao contrário do que pensavam os Pitagóricos, dava-se a uma junção que formava ao acaso,  como por exemplo, o  doce e amargo, bom e mau, grande e pequeno, preto e  branco.  
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                Seguindo essa ideia chegou à conclusão que esses opostos tinham uma aplicação médica, lembrando que os escritos dele referiam-se à medicina, veja o artigo nesse blog: Os órgãos dos sentidos segundo o filósofo Alcmeão. Segundo Barnes, o filósofo afirmava que através do igualitarismo entre as forças: frio e quente, seco úmido, doce e amargo entre outros, e que toda a autocracia entre eles suscita o aparecimento da enfermidade, ou seja, a autocracia de qualquer membro de um par é destrutiva. A enfermidade vai ocorrer por um exagero de frio ou calor, de um exagero ou deficiência alimentar e no sangue, na medula e no cérebro. Outro fator que a enfermidade ocorre será por causas externas, como por exemplo, algo que ocorreu num lugar e afetou o ar onde a pessoa encontra-se, algum problema que tem a água de determinado lugar, cansaço, uma força feita em excesso ou algum outro fator semelhante. Para ele a saúde é uma aglomeração extremamente harmonizada das propriedades.  

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Créditos:
MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento Antigo. Trad. Lívio Teixeira. Editora Mestre Jou, São Paulo, 1964.
BARNES, Jonathan. Filósofos Pré-Socráticos. Trad. Julio Fischer. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2003.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Utilitarismo preferencial de Peter Singer

por Leandro Morena

Utilitarismo é o pensamento ético normativo ao qual uma ação é moralmente certa, isto é, quando esta ação venha  promover o bem estar para a maioria da coletividade. Isso não atinge todos os indivíduos, pois é aceito que um pequeno número de indivíduos se sacrifique para que a maioria atinja o bem estar. Mesmo assim, essa doutrina filosófica condena a infelicidade do indivíduo ou de todos que venham ser afetados por ela.

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Em 2011 o Japão foi atingido por um tsunami devastador que causou o rompimento de um reator de uma usina nuclear na cidade de Fukushima. Algumas semanas após o desastre, alguns homens foram selecionados para entrar na usina com o objetivo de desligar dois reatores que ainda funcionavam e minimizar o problema da radiação do reator que estava vazando. Todos eles aceitaram ir sabendo do risco que corriam da contaminação que causará problemas de saúde no futuro e até com a hipótese de perderem à vida no mesmo local. Na visão do utilitarismo essa ação é considerada válida, pois vai sacrificar alguns indivíduos para salvar a maioria da população desse local.
Aqui no Brasil, no Pantanal, os boiadeiros são obrigados levar o rebanho, por causa da escassez de comida, para outra região farta em alimentos para mantê-los bem. Um dos obstáculos que eles se deparam são os rios infestados por piranhas. Para atravessar o rio com o rebanho, o boiadeiro vê-se obrigado separar um boi ao qual será sacrificado para que o rebanho atravesse o rio em segurança. O boi é separado e levado ao rio, logo é atacado pelas piranhas. Rapidamente o rebanho atravessa o curso d’água e conseguem chegar do outro lado. Em poucos minutos o boi que foi separado é devorado. Um boi teve que ser sacrificado para que a maioria do rebanho ficasse salva. Observamos que nesse exemplo alcançou-se o princípio do utilitarismo, pois causou o bem estar para a maioria do rebanho.
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clip_image005O utilitarismo já vigorava na Grécia antiga, onde o filósofo Epicuro (341.-270 a.C.) e seus sucessores sistematizaram essa doutrina que consiste em evitar a dor e procurar os prazeres moderados para atingir a sabedoria e a felicidade para o bem estar de uma comunidade. Mas foi no século XVIII que o filósofo Jeremy Bentham (1748-1832) fundiu a idéia do utilitarismo seguido pelo seu sucessor que deu continuidade nesse pensamento, tratando-se do filósofo John Stuart Mill (1806-1873).  Esses filósofos agregaram em seus pensamentos o princípio da utilidade e conseguiram aplicá-lo nas questões importantes que estão consolidadas nos maiores poderes que regem uma sociedade, são eles:  a justiça, a política, a economia entre outros. Em suma, a tese central do utilitarismo clássico defende que uma ação ética deve aumentar o prazer e diminuir o sofrimento.
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clip_image007O utilitarismo preferencial de Peter Singer tem como objetivo que o interesse de um indivíduo não deve ser maior do que o outro e os interesses desse indivíduo devem levar em conta todos os indivíduos que serão afetados pela decisão dele, ou seja, visa que uma ação ética seja adequada para todos os envolvidos na ação tomada ao longo do tempo.
Um princípio ético pode ser entendido como uma norma ou regra geral que visa colocar um modelo cuja finalidade é realizar um valor.  Para Peter Singer um princípio ético é a aplicação da ética e moralidade que aborda questões práticas de como tratar certas classes de minorias étnicas como, por exemplo, os animais que são usados para na fabricação de alimentos e em pesquisas de laboratórios, o aborto, a igualdade para as mulheres, etc.
Segundo Peter Singer, o que torna os homens iguais são os seus interesses que podem ser usados nas decisões morais, não tratar todos iguais, mas o equilíbrio em que são afetados por uma ação moral. Singer discorda de qualquer teoria de que todos os homens são iguais, ele afirma que existem diferenças entre os indivíduos, porque os seres humanos não a possuem no mesmo grau, um exemplo são os recém-nascidos.
A filosofia singeriana coloca-nos à frente de duas ideias: a Igualdade de consideração de interesses e no princípio de igual consideração de interesses.
No primeiro, Igualdade de consideração de interesses, Singer afirma: “é um princípio mínimo de igualdade, no sentido que não impõe um tratamento igual”. A igual consideração de interesses age de uma forma não-igualitária, por exemplo, num acidente envolvendo dois carros com duas vítimas, o primeiro motorista (A) sofreu uma fratura exposta num dos braços e está sofrendo muita dor, já o segundo motorista (B) quebrou um dos pés e está sentindo dor, mas uma dor mais suportável do que uma fratura exposta. O médico chega ao local e tem apenas dois anestésicos para aliviar a dor, se der apenas um anestésico para o indivíduo (B) que tem apenas o pé quebrado, logo a dor acalma, mas para o indivíduo (A) que tem a fratura exposta não basta apenas um anestésico para aliviar a dor; nessa situação a igual consideração de interesses escolhe que o indivíduo (A) que tem a fratura exposta por ter a dor mais forte receba as duas doses do anestésico.
Já o princípio de igual consideração de interesses, segundo Singer, procura dar o máximo de igualdade, mesmo se às vezes não seja a melhor decisão. Noutro  exemplo usando um acidente envolvendo dois motoristas, uma vítima(A) fatalmente veio a perder um braço e está sujeito a perder três dedos da mão, e a outra vítima(B) está sujeita perder um dos braços, que socorrendo logo pode ser salvo. Neste caso o princípio de igual consideração de interesses diz que a vítima (B) que está sujeita a perder um dos braços tenha prioridade, pois o princípio entende que se o individuo for socorrido logo salvará o braço, pois a outra vítima (A) já perdeu um braço e pode vir a perder os três dedos, e entre amputar três dedos ou salvar um braço a opção é amputar os três dedos da outra vítima (A). Aqui não devemos levar em conta os interesses particulares, mas sim o interesse de todos que foram afetados.
 Créditos:
BENTHAM, Jeremy e STUART MILL, John. Os Pensadores. Tradução: Luiz João Baraúna, João M. Coelho e Pablo R. Mariconda. Abril Cultural, São Paulo, 1979.
SINGER, Peter. Vida Ética. Tradução: Alice Xavier. Ediouro, Rio de Janeiro, 2002.

SINGER, Peter. Ética Prática. Tradução: Jefferson Luiz Camargo. Editora

Martins Fontes, São Paulo, 2006.