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Pansophia

Pansophia

domingo, 5 de agosto de 2012

Deus é a medida de todas as coisas - Platão – 427-347 a.C

por Osvaldo Duarte
 
Nas Leis, Platão retoma a velha questão de Protágoras, de que o homem é a medida de todas as coisas. Se no Crátilo Platão encontra-se na aporia, nas Leis caminha pela via da religiosidade.

Crátilo
(...) como ensinava Protágoras, dizendo que “o homem é a medida de todas as coisas” – ou seja, que todas as coisas são para mim tal como me aparecem, e que são para ti tal como te aparecem...
E o que te parece o seguinte? Os muito nobres são muito razoáveis, e os muito vis, muito desrazoáveis?
Nesse caso, parece-me que és inteiramente da seguinte opinião: que, existindo razoabilidade e a desrazoabilidade, é de todo impossível que Protágoras diga a verdade; porque, na verdade, um homem nada poderia ser mais razoável do que outro, se aquilo que cada um opina fosse a verdade para esse.
Assim sendo, se Protágoras diz a verdade e a verdade é essa – que as coisas são para cada um como lhe parecem -, alguns de nós serão razoáveis e outro desrazoáveis?
Então, se nem todas as coisas são da mesma maneira para todos, simultaneamente e para sempre, nem cada coisa é para cada um em particular, é evidente que as coisas têm uma certa entidade estável...

Leis
Qual é, pois, o comportamento agradável ao deus e digno de seus seguidores? Só há um, claramente expresso num antigo ditado: o semelhante agrada ao semelhante sempre que observa a medida, o que não acontece com os descompassados, que nem estimam reciprocamente nem apreciam os comedidos. Para nós, deus é a medida de todas as coisas, não o homem, como se diz comumente, seja este quem for. Assim para ficar amado de deus, terá necessariamente de tornar-se semelhante a ele, na medida das suas possibilidades. De acordo com esse princípio, o que entre nós for temperante será amigo de deus, por assemelhar-se-lhe, enquanto o intemperante, que não se lhe assemelha, é injusto e diferente dele, e assim com tudo o mais, segundo o mesmo raciocínio.
homem-vitruviano

Está em deus o poder do começo, meio e o fim de tudo que o existe, marchando sempre em linha reta tem no seu rastro a justiça. O homem que desviar-se da lei divina receberá o castigo, mas o homem que a seguir de perto, i.e. o homem virtuoso, será feliz.
Com efeito, ao afastar-se da retidão, o homem abandonado por deus, procurará a companhia de outros que lhes sejam iguais, desprezando os comedidos, provocando confusão e, em pouco tempo prestará contas à justiça, arruinando a sua casa e toda a cidade. O intemperante, o injusto não é amigo de deus.
O homem virtuoso oferecerá sacrifícios aos deuses e estará sempre em ralação com eles através de preces e oferendas e todo o culto divino e, na medida do possível será semelhante a deus e seu amigo.
 
Créditos
PLATÃO. Leis, vol. XII-XIII. Trad. Carlos Alberto Nunes. Pará, Universidade Federal do Pará, 1980.
PLATÃO. Crátilo. Trad. Maria José Figueiredo. Lisboa, Instituto Piaget, 2001.















domingo, 29 de julho de 2012

Prazer e Dor, O Fio de Ouro - Platão – 427-347 a.C.

por Osvaldo Duarte
Há uma lenda de que poucos haviam lido integralmente a mais extensa e inacabada obra de Platão, as Leis. Esta obra foi escrita provavelmente entre 360 e 347, ano da morte do autor, por isso mesmo inacabada. Sócrates não participa do texto Leis, que é uma conversa travada entre o ateniense e seus companheiros de viagem, cretense e lacedemônio.
 
prazer e dor
Prazer e dor
Segundo Platão, todo homem abriga dentro de si dois conselheiros insensatos e antagônicos, o prazer e a dor, juntando a estes tem a opinião sobre os casos futuros a qual chamamos de expectativa que, quando da possibilidade de dor denominamos medo, ou o seu contrário prazer, confiança. Sobre estas paixões preside a razão que tem por finalidade pronunciar-se acerca do que tem de boa ou de má, cuja conclusão é a lei, quando se torna decreto comum da cidade. É na infância que o prazer e a dor surgem como primeiras percepções, sendo por seu intermédio que se apresentam inicialmente ao espírito como verdade ou vício; cabe à educação preparar cidadãos virtuosos, capazes de comandar e de obedecer.
Quando o prazer e a amizade, a tristeza e o ódio se geram diretamente em almas ainda incapazes de compreender a sua verdadeira natureza, com o advento da razão põem-se em harmonia com ela, graças aos bons hábitos adquiridos. É nesse acordo que consiste a virtude.
(...) os prazeres e as dores se harmonizam com o raciocínio justo e lhe obedecem.
marionete
O fio de ouro
(...) imaginemos que cada um de nós, como seres vivos, não passe de um boneco nas mãos dos deuses, que talvez nos tenham formado por divertimento, ou mesmo com intenção séria, o que escapa à nossa compreensão. Uma coisa, porém, sabemos com segurança: que no nosso íntimo as referidas paixões se agitam à maneira de nervos ou fios, que puxam em sentido contrário, compelindo-nos por isso mesmo, à prática de ações opostas, na linha limítrofe do vício de da virtude. Manda-nos a razão só ceder à tração de um desses fios, sem nunca abandoná-lo, e resistir aos outros. É o fio sagrado e de ouro da razão, que denominamos lei comum da cidade. Os demais fios são de ferro, são duros; este é maleável, porque de ouro, ao passo que os outros se parecem com as mais diferentes substâncias. É preciso que todos cooperem sempre no sentido da mais bela direção, a da lei.
 
Créditos
PLATÃO. Leis, vol. XII-XIII. Trad. Carlos Alberto Nunes. Pará: Universidade Federal do Pará, 1980.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Da Educação - Platão – 427-347 a.C.

 

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”Quando censuramos ou elogiamos a educação de alguém do nosso meio, dizemos que este ou aquele indivíduo é bem o mal educado, ainda mesmo que tenham recebido educação esmerada para a arte de navegação, o comércio por miúdo ou para outras atividades do mesmo teor. Segundo penso, não é nesse sentido que falamos de educação, mas no da educação para a virtude, que vem desde a infância e nos desperta o anelo e o gosto de nos tornarmos cidadãos perfeitos, tão capazes de comandar como de obedecer, de conformidade com os ditames da justiça. Essa é a modalidade de educação que tentamos definir, a única, segundo o meu modo de pensar, que merece ser assim denominada. A que tem por fim a aquisição de riquezas ou de qualquer modo de força ou habilidade que não leve em consideração a razão e a justiça, é vulgar e nada de nobre e não merece absolutamente o nome de educação. (...) o indivíduo bem educado se torna virtuoso, e que de forma alguma devemos menosprezar a educação, por ser o que de melhor e mais elevado chegam a alcançar os homens superiores.”

 

Créditos

PLATÃO. Leis, vol. XII-XIII. Trad. Carlos Alberto Nunes. Pará: Universidade Federal do Pará, 1980.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Voo controlado – Monchrétien – 1575-1621

 
por Osvaldo Duarte
montchrestien
“A melhor influência que se pode ter sobre os homens, é conhecer-lhes as inclinações, os movimentos, as paixões e os hábitos; tomá-los pelas asas é poder levá-los onde se quiser.”
                                                                                               Tratado de Economia Política
Créditos
CAILLÉ, Alain. História Crítica da Filosofia Moral e Política. Lisboa, Verbo.2005.

domingo, 24 de junho de 2012

Do prazer e do sofrimento – Aristóteles – Séc. 384-322 a.C.

por Osvaldo Duarte

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Para Aristóteles, a alma procura por certa disposição natural a relacionar-se com situações que a tornam melhor ou pior, sendo que as disposições éticas são dadas pelo prazer e pelo sofrimento que acompanham as nossas ações, portanto, a excelência ética constitui-se em vista do prazer e do sofrimento, sendo uma disposição intermédia entre outras duas disposições extremas, a saber, perversas e a outra segundo o defeito. E ainda, segundo o Estagirita, tendemos naturalmente mais para as coisas que nos dão prazer, o que nos leva mais facilmente à devassidão do que para o regramento. Os castigos que infligem sofrimentos são como uma espécie de curativos que podem transformar a disposição da alma.

“... como diz Platão, a fazer gosto no que deve ser e sentir desgosto, pelo que não deve ser. Essa é a educação correta. (...) o prazer e sofrimento acompanham toda a afecção e toda ação.

Há três possibilidades relativamente às quais se definem as escolhas do que devemos perseguir e do que devemos preterir e evitar. Devemos escolher o belo, o vantajoso e o agradável; devemos, por outro lado, evitar os seus contrários, isto é, o feio, o nocivo, o desagradável. (...) o homem de bem é capaz de escolher corretamente e o perverso erradamente, sobretudo a respeito do prazer: na verdade o prazer é também comum aos animais e acompanha todas as possibilidades de escolha; tanto o belo como o vantajoso parecem ser agradáveis.

Será um homem de bem quem fizer o bom uso deles; mas já quem fizer o mau uso deles será perverso”.

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Sendo a excelência ética uma disposição intermédia entre as disposições extremas como dissemos, não é tarefa fácil atingi-la, teremos de agir de acordo com as circunstâncias, isto é, conforme a situação apresentada; é por isso, nos diz Aristóteles, que o bem é raro, louvável e belo.

Com efeito, se encontrar o meio não é empresa fácil, pois, dos extremos, um é mais errado do que o outro, assim, deve escolher o menor dos males, i.e., dada a nossa tendência natural para as coisas diferentes o que é reconhecido a partir do prazer e do sofrimento que nos causam, amiúde, devemos examinar a que erros somos mais facilmente levados e nos esforçamos em seguir na direção contrária, procurando arrastarmos para fora do erro para chegar ao meio; assim, continua o Estagirita, temos de evitar também, o que é agradável e o prazer, porque quando o prazer está em julgamento, é difícil ser juiz imparcial. Outra dificuldade é estabelecer o limite do censurável de nossas ações, porque nenhum objeto da percepção é facilmente determinado.

Sendo o caminho do meio o mais louvável, o que temos de fazer diante das situações que se apresentam é agirmos de tal maneira a evitar os excessos, outras, o defeito: essa é a maneira mais fácil de conseguirmos atingir o meio e modo correto de agir.

Créditos

ARISTÓTELES. Ética a Nicómano. Trad. António de Castro Caeiro. Lisboa, Quetzal Editores, 2012.

sábado, 26 de maio de 2012

O sono de um sábio – Epimênides – Séc. VII a.C.

por Osvaldo Duarte

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Epimênides o sábio, é uma personagem um tanto curiosa, nasceu em Cnossos no séc. VII, usava cabelos longos, o que era estranho aos costumes local. Certa feita, seu pai mandou-o ao campo em busca de uma ovelha desgarrada, mas desviando-se do caminho foi dormir em uma caverna onde teria ficado adormecido durante 57 anos. Ao despertar do longo sono, saiu em busca da ovelha, pois acreditava que estivera dormindo por pouco tempo. Epimênides viveu 157 anos; sua obra ao que tudo indica, foi escrita em versos com conteúdo cosmogônico, mitológico e político. O velho sábio é considerado também profeta, um purificador de almas, sua adivinhação não era tanto desvendar o futuro, mas descobrir no passado os erros que afetavam o presente.

(...) disse Epimênides cretense: de fato, ele vaticinava não acerca do futuro, mas sim acerca das coisas já acontecidas, mas obscuras.

Para Casertano, Epimênides é figura de transição entre a cultura sapiencial e a nova cultura filosófica, isto é, figura que se interpõe entre a fase mítica e a fase filosófica da cultura grega. Seu longo sono é relacionado à letargia, uma prática para obter sonhos divinatórios, quer seja dos mortos como também  dos deuses, ao acordar, o escolhido é capaz de revelar fatos passados ou futuros.

Quando uma terrível peste abateu Atenas, nosso sábio foi chamado para purificá-la, o que para Casertano fora por motivo político dada às reformas implementadas por Sólon, sendo que na época era comum mesclar política e religião.

Epimenides

 

Segundo a tradição, Epimênides recebeu das ninfas um alimento mágico que conservava num casco de boi, desde então, nunca fora visto comendo, portanto, nunca defecava. Outros diziam que ele recebera de Hesíodo algumas sementes que tinha o poder de matar a fome.

Contra o mito

há um mito segundo o qual águias e cisnes, levados das extremidades da terra ao centro dela, para ali desciam, para Delfos, até o chamado “umbigo da terra”. Em seguida Epimênides de Festos, ao investigar/refutar o mito junto do oráculo do deus, e recebendo uma resposta obscura e ambígua, assim escreveu: “Nem na terra nem no mar há no meio um umbigo; e mesmo que haja é evidente aos deuses, mas está escondido aos mortais”.

O paradoxo do mentiroso

“Se tu afirmas mentir e dizes que isso é verdade, mentes ou dizes a verdade?”

Créditos

CASERTANO, Giovanni. Os Pré-Socráticos. Trad. Maria da Graça Gomes de Pina. São Paulo, Edições Loyola, 2009.

CORNFORD, F.M.. Principium Sapientiae. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1952.

LAÊRTIOS, D.. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução: Mário da Gama Kury. Brasília, Editora da UnB, 2008.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Homem como Medida - PROTÁGORAS (Séc. V a.C.)

por Osvaldo Duarte

 

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O homem é a medida de todas as coisas, das que são, enquanto existem, e das que não são, enquanto não existem.

Trad. M.H.R.P

O frg. I Diels-Kranz é peça fulcral para a compreensão do pensamento do sofista de Abdera. Com efeito, a hermenêutica tem se mostrado abundante, haja vista as inúmeras bibliografias consagradas ao tema. M.J. V. PINTO apresenta o que seria o consenso quanto ao conteúdo doutrinal do fragmento:

“Cada homem é medida da realidade das coisas (objetos, fatos, sentimentos, etc.) tal como se lhes apresentam, e daí resulta que todas as suas representações são igualmente verdadeiras enquanto se baseiam na captação imediata das aparências”.

“(...) o homem é “medida” das coisas com as quais se relaciona de forma imediata através da percepção fenomênica, sem que se possa separar “pensamento” e “sensação”. (...) o que se discute não é propriamente a existência ou não existência das coisas, mas sim o modo como se relacionam com o homem...”.

 

Alguns comentários:

 

Hérmias – Escárnio dos filósofos pagãos

Mas aí está agora Protágoras, puxando-me para outro lado, quando diz: “O limite e o critério das coisas é o homem; o que lhe cai sob os sentidos são coisas, e o que não cai não se encontra entre as espécies de essência”.

Sexto Empírico – Contra os Matemáticos

Alguns incluíram também Protágoras de Abdera no grupo dos filósofos que aboliram o critério, porque afirma que todas as aparências e todas as opiniões são verdadeiras e que a verdade é algo de relativo, pois que tudo o que é aparência ou opinião para um indivíduo existe desde logo para ele.

 

Créditos

PINTO, Maria José Vaz. A Doutrina do Logos na Sofística, Lisboa, Edições Colibri, 2000.

PEREIRA, Maria H. R. Hélade Antologia da Cultura Grega, Lisboa: Guimarães Editores SA, 2009.

PADRES APOLOGISTAS, Tr. I. Storniolo e E. M. Blancin. Patrística, São Paulo, Paulus, 2005.

SOFISTAS. Testemunhos e Fragmentos. Tradução: Ana Alexandre Alves de Sousa e Maria José Vaz Pinto. Lisboa, INCM, 2005.

sábado, 28 de abril de 2012

Hermotimo - Luciano (125-191)

por Osvaldo Duarte

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Luciano nasceu no ano  125 em Samósata, cidade ao norte da Síria, morrendo por volta do ano 191. De família não abastada, seu primeiro ofício foi de aprendiz de escultor na oficina de seu tio, sendo que  após um desentendimento, abandona o ofício e vai estudar.

Aos 25 anos de idade, passa a exercer a advocacia em Antioquia, viajando e proferindo palestras na Ásia Menor, Grécia, Macedônia, Itália, entre outros lugares.

Na obra que ora apresentamos fragmentos: Hermotimo ou as Escolas Filosóficas, Luciano assume a postura cética, insurgindo-se contra o dogmatismo, atacando com certa ironia o estoicismo como também, a própria filosofia.

Neste diálogo, Licino convence o estoico Hermotimo a aceitar o ceticismo, mas sem antes provocar-lhe um sentimento de náuseas:

“Oxalá eu pudesse vomitar essas tretas que lhes ouvi!”

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Hermotimo – “também ouvia toda a gente dizer que os epicuristas eram sensuais e voluptuosos, que os peripatéticos eram ávidos de riquezas e quezilentos, que os platônicos eram orgulhosos e vaidosos, ao passo que, a respeito dos estoicos, a maioria das pessoas afirmava que eram corajosos, que sabiam tudo, e que só o homem que seguisse por tal caminho seria rei, só era rico, só esse era sábio e reunia em si todas as virtudes”.

Licino – “Já alguma vez encontraste um estoico, ou um epicurista (...), que não divergisse no que toca aos princípios ou aos fins?”

“... estando nós a investigar quais é que falam a verdade em matéria de filosofia, tu antecipaste-te e atribuíste esse [privilégio] aos estoicos, dizendo que foram eles quem determinou que duas vezes dois são quatro - (...). De facto, os epicuristas ou os platônicos diriam que eles é que chegaram a esse resultado ...”

“Quero dizer-te que não é coisa minha, mas de um dos sábios; trata-se do “sê prudente e céptico”. Realmente, se não acreditarmos facilmente no que formos ouvindo, mas antes nos comportarmos como os juízes, isto é, dando também a palavra aos que vierem a seguir, talvez consigamos escapar dos [vários labirintos]”.

“Portanto, também tu (...) farias bem melhor em decidir-se viver, daqui para o futuro, uma vida como a de toda a gente: serás um cidadão como os demais, não porás esperanças em coisas bizarras e estúpidas, nem (se fores sensato) te envergonharás pelo facto de, já velho, mudares de opinião e te passares para a coisa melhor.”

“(...) todos os filósofos propuseram saber em que consiste a felicidade, e cada um diz sua coisa: um afirma que consiste no prazer, outro na beleza, outro noutra coisa qualquer.”

Licino, com vários argumentos que apontam para a mesma direção, faz com que Hermotimo seja convertido ao ceticismo. Assim, o recém -convertido, termina o diálogo:

“... ao caminhar na rua, topar com um filósofo, desviar-me-ei, evitá-lo-ei como um cão danado.”

 

Hermotimo significa “honrado por Hermes”

Créditos

LUCIANO, Hermotimo ou as Escolas Filosóficas.Trad.Custódio Magueijo. Lisboa, Editorial Inquérito, 1986.

domingo, 22 de abril de 2012

TRABALHO – Catão– Séc. III-II a.C.

 

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“É que a vida humana é quase como ferro: se se exercitar, gasta-se; se não se exercitar, a ferrugem aniquila-o. Assim vemos os homens desgastarem-se na sua actividade, mas, se não tiverem actividade nenhuma, a inércia  e a torpeza causam mais prejuízos do que o exercício”.

“Sem fazer nada, os homens aprendem a fazer mal”.

Trad. Maria H. R. Pereira

Créditos

PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Romana Antologia da Cultura Latina. Coimbra, Univ. de. Coimbra, 2000.

domingo, 15 de abril de 2012

As Doutrinas Secretas – Pico Della Miràndola – (1463-1494)

 

por Osvaldo Duarte

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Giovanni Pico nasceu na Itália em 1463, morrendo ainda jovem em 1494 com apenas 31 anos de idade. Filho de família abastada, estudou nos melhores centros de cultura erudita. Pico falava várias línguas – latina, grega, árabe, hebraico e o caldeu, além do francês.

Omitimos aqui os seus comentários sobre as doutrinas religiosas e, apresentamos tão-somente, excertos sobre as doutrinas filosóficas.

Portanto, manter essas coisas distantes do vulgo, com a obrigação de revelá-las aos perfeitos, pois entre eles é que a sabedoria. (...) Praxe essa acatada, com rigor, pelos antigos filósofos. Pitágoras quase nada escreveu a não ser umas poucas linhas que, ao morrer, confiou na sua filha Damo. Já as efígies esculpidas, nos templos egípcios, advertiam o seguinte: que os dogmas egípcios fossem custodiados pelas chaves dos enigmas, ficando assim invioláveis para a multidão dos profanos. Platão escrevendo a Dionísio sobre os modos supremos de ser, dizia: “Por enigmas tenho que me expressar a fim de que, caso essa correspondência caia em mãos estranhas não seja entendida por outros quanto te escrevo”. Aristóteles, a respeito dos livros de metafísica, nos quais trata de assuntos ultraterrestres, afirma haver os editados e os fora de edição.

(...) lembro ter Giamblico Calcídeo escrito que Pitágoras apreciava a tal ponto a teologia órfica que dela fez o modelo para plasmar a sua própria filosofia.

Em decorrência disso, as sentenças de Pitágoras passam a ser chamadas de sacras na medida em que são derivadas de esquemas órficos. Daí, qual fonte originária, emanou a doutrina oculta dos números e tudo mais que de grandioso e sublime apresentou a filosofia grega. Segundo o costume dos antigos gregos, também Orfeu revestiu seus mistérios dogmáticos com o invólucro das fábulas e ocultou-os no aparato poético de sorte a dar ao leitor a impressão de que seus livros nada mais eram do que meras fábulas e nugas engenhosas.

Faço tal menção para que conheça o trabalho dificultoso em extrair desses artifícios enigmáticos, verdadeiros esconderijos, em formato de apólogos, o sentido latente daquela filosofia hermética. Ainda mais quando nessa tarefa tão árdua, recôndita e inexplorada, não se dispõe da ajuda bibliografia ou de recurso por parte dos intérpretes.

Créditos

MIRANDOLA, Pico Della. A Dignidade do Homem. São Paulo, Editora Escala,????.