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Pansophia

Pansophia

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Crítica à vivissecção Parte II

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por Leandro Morena

clip_image002O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi um crítico severo na questão da prática da vivissecção. Para ele essa prática tem por objetivo causar sofrimento nos animais, pois é puramente cruel e ilógica. Schopenhauer critica os biólogos alemães de sua época, pois tratavam os animais com crueldade, com a finalidade de resolver questões de caráter inútil, questões essas, que muitas vezes a solução encontra-se nos livros; e ele ainda afirma que esses biólogos são preguiçosos por não lerem tais livros. 

 Na época de Schopenhauer, foi muito comum cientistas, filósofos, médicos e teólogos praticarem experiências com os animais, pois essas experiências soavam como um status, mesmo se essas teorias funestas elaboradas por eles não causassem nenhum progresso, eram aplaudidos e elogiados.

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            Schopenhauer cita alguns exemplos da crueldade praticada com os animais por intelectuais da época.  Um dos casos de crueldade com os animais narrada por Schopenhauer foi o episódio do professor Ludwing Fick (1813-1858), que foi um professor de anatomia na Universidade de Marburg, e na sua obra “Causas das formações ósseas” de 1857, o próprio relatou que praticou a extirpação nos globos oculares de animais filhotes com a única finalidade de comprovar que a cavidade deixada por tal prática faz com que os ossos comecem crescer cobrindo essas cavidades. Noutro exemplo, do mesmo patamar do primeiro e não menos tétrico, foi a experiência absurda feita pelo barão Ernst von Bibra (1806-1878), um naturalista alemão, que afirmara, numa de suas palestras, que fez com que uma dupla de coelhos viessem a morrer de fome, e fez tal prática, apenas para concluir, simplesmente, que os componentes químicos existentes no cérebro desses animais sofreram uma modificação proporcional devido à morte pela clip_image006falta de alimentação; o filósofo afirma ter sido essa uma experiência fútil e faz uma crítica severa ao barão, afirmando: para que o barão deixou os pobres animais ficarem presos e famintos para sofrer dessa maneira? O filósofo afirma que existem outros caminhos e métodos que podem ser pesquisados e não precisam sentenciar os animais à crudelíssima prática, como fez Von Bibra, que por sua vez, tem muito que ler e aprender nos livros.

 

Schopenhauer termina a crítica afirmando:

  Ninguém que ainda não conheça nem saiba tudo o que está contido nos livros sobre a circunstancia a ser pesquisada tem o direito de praticar vivissecção!

                                                                                 Trad.: E. Brandão e K. Jannini

No mundo contemporâneo não mudou muito esse pensamento científico, continua-se com essa prática cruel, pois muitos cientistas afirmam que se não fossem as pesquisas da experimentação animal, não se teriam conseguido avanços contra enfermidades que acabrunham os seres humanos. Os cientistas lutam há décadas para descobrir uma cura contra muitas doenças, e muitos animais indefesos passam por sofrimentos até que cheguem a óbito, mas sabemos que muitas vezes as pesquisas são fracassadas e não chega a nenhuma conclusão positiva, sentenciando milhares de animais à morte, como se fossem objetos de descarte, sem que tenham o direito de viver.

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Créditos:

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de insultar. Organização e ensaio: Franco Volpi.

Tradução: Eduardo Brandão e Karina Jannini. São Paulo, Martins Fontes, 2005.

 

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Da não cidadania ateniense

por Osvaldo Duarte

Em outro texto (A cidadania ateniense), trouxemos à luz o cidadão ateniense, cumpre-nos agora mostrar o outro lado, isto é, as pessoas que não possuíam o título de cidadão: as mulheres, os metecos, os escravos e os libertos.

mulher

As mulheres

Embora desprovidas do direito de cidadania em Atenas, onde apenas homens (cidadãos) partilhavam entre si o poder decisório das questões atinentes à cidade, as mulheres tinham papel preponderante, era através delas que se transmitia a cidadania, pois, como já dissemos*, para ser cidadão na época de Péricles, tinha de ter pai cidadão e mãe ateniense. O casamento legítimo, o único reconhecido como tal, só acontecia entre o cidadão e a filha de outro cidadão.

O estado matrimonial reconhece-se à que procriou, à que apresentou os seus filhos à frátria e ao demo, as que dão as próprias filhas em casamento. As cortesãs, têmo-las para o prazer; as concubinas para os cuidados do dia-a-dia; as esposas para ter uma descendência legítima e ser uma fiel guardiã do lar.

meteco

Os metecos

Estrangeiros domiciliados na cidade, os metecos, deveriam registrar a sua inscrição no demo[1] para obter seu estatuto pessoal. Era vedado aos metecos a propriedade fundiária, o casamento misto e ter descendentes cidadãos.

Como pessoa, a justiça os protegia menos do que os cidadãos, o que não acontecia com os seus bens. Pagavam impostos ordinários e, em alguns casos, as liturgias[2] (consoante a sua fortuna), e a taxa de residência.

Os metecos instalavam-se onde desejavam e tinham liberdade de culto. Serviam no exército como hoplitas[3], ou na marinha como remadores ou marinheiros.

Havia na cidade, aqueles que não tinham uma ocupação, esses estavam fadados à miséria; mas grande parte dos metecos, pobres e ricos, tinha trabalho regular.

Os metecos atuavam na indústria e no comércio. Era comum também, encontrar metecos cabeleireiros e almocreves. A liberdade comercial era quase absoluta; em Atenas, era exigido dos estrangeiros o pagamento de uma taxa para exercerem o comércio. A exploração do subsolo era a única empresa que não estava nas mãos dos metecos, pois não podiam ter propriedade fundiária; nesse ramo de negócio, geralmente os escravos trabalhavam nas minas, e os concessionários eram os cidadãos. Os metecos desprezavam essa tarefa por considerá-la humilhante e penosa.

escravos

Os escravos

Para os gregos era inconcebível uma sociedade sem escravos O cidadão destinava a sua força e inteligência nos interesses da cidade. Com efeito, para o exercício da cidadania, o ateniense deveria estar livre das ocupações domésticas e dos trabalhos manuais. A servidão era um processo natural, legítimo e necessário para a sobrevivência duradoura de uma sociedade. Os escravos natos existiam, eram os bárbaros.

A condição servil em Atenas era considerada melhor do que a miséria extrema como muitos que viviam à margem da cidade. Os escravos eram alimentados pelos seus senhores e providos do mínimo indispensável à vida humana. Alguns historiadores asseguram, com base em pinturas dos vasos e outras fontes,  que não era incomum a amizade entre senhor e servo. Asseveram-nos ainda, que muitos escravos eram inteligentes e homens dignos, fazendo com que os cidadãos soubessem distinguir entre a condição servil e a pessoa. O escravo que conseguia a sua emancipação tornava-se meteco.

A condição servil tinha três origens: O nascimento, a guerra e a condenação em julgamento. A maioria dos escravos provinha da guerra.

 

liberto

 

Os libertos

Dos diversos modos de manumissão, o mais comum era a obtenção da liberdade através de resgate. E senhor não era obrigado a aceitar o resgate oferecido diretamente pelo escravo, era necessário conquistar a sua benevolência, ou então oferecer uma soma que lhe despertasse o interesse. Geralmente utilizava-se um terceiro na transação, ou seja, o escravo entregava o valor a um terceiro que o comprava do senhor e depois concedia a sua liberdade.

Os libertos, na condição de meteco, geralmente viviam do trabalho no comércio ou na indústria. Era possível encontrar liberto tanto cozinheiro quanto banqueiro. Moravam nos arredores da cidade, nos bairros mais afastados.

* Veja o texto “A cidadania ateniense”.

 


1 - Demos eram as divisões territoriais -administrativas .

2 - Despesas públicas destinadas aos mais ricos.

3 - Hoplitas – infantaria pesada.

 

Créditos:

 

CROISET, A. As Democracias Antigas. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1923.

GLOTZ, Gustavo. História Econômica da Grécia. Lisboa, Edições Cosmos, 1973.

KITTO, H. D. F. Os gregos. Coimbra, Armênio Amado, Editor, Sucessor, 1960.

MOSSÉ, Claude. O Cidadão na Grécia Antiga. Lisboa, Edições 70, 1999.

domingo, 2 de junho de 2013

Eudaimonía, a Felicidade Grega

por Osvaldo Duarte

 

 

feliz

O que entendemos hoje por felicidade (eudaimonía) é bem diverso do que os antigos gregos a entendiam como tal. Com efeito, a felicidade para nós hoje é apenas um decalque do que era a felicidade para os gregos. O conceito grego de felicidade, ao menos para os filósofos, estava ligado ao conceito de virtude ou excelência (aretê).

 

Demócrito servia-se de vários termos para designar a felicidade, sendo que para ele, felicidade era algo interno, da alma, e não se encontrava na posse de bens materiais:

 

A felicidade e a infelicidade são fenômenos psicológicos.

 

A felicidade não consiste na posse, nem de rebanhos, nem de ouro, porque a causa da felicidade reside na alma.

 

As forças físicas e as riquezas não dão a felicidade, que só é dada pelo caráter e pela sabedoria.

                                                                                                 Trad. P. Gomes

 

Para Platão, ser feliz é viver bem e ser justo.

 

Logo, a alma justa e o homem justo viverão bem, e o injusto mal.

Mas sem dúvida o que vive bem é feliz e venturoso, o que não vive bem, inversamente.

Logo, o homem justo é feliz, e o injusto é desgraçado.

Contudo, não há vantagem em ser desgraçado, mas sim em ser feliz.

                                                                                                                         Trad. M.H.R.Pereira

 

... para os deuses a vida mais agradável * é também a mais justa.

                                                                                                                              Trad. C.A.Nunes

 

 

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Aristóteles considerava a felicidade como  excelência  da ação contemplativa.

A felicidade como fim último de todas as ações humanas, e tem como sentido “o melhor de tudo”. A felicidade é o supremo bem prático.

 

O estagirita distribui os bens em três classes, a saber:

Bens exteriores, por outro lado, os bens que dizem respeito à alma humana e, por último, os do corpo próprio.

 

Os bens que concernem à alma humana são os mais autênticos e os mais extremos. Mas a felicidade são as ações e o exercício das atividades concernentes à alma humana. Quem é feliz vive bem e age bem.

 

A felicidade é então o bem supremo, o que há de mais esplendoroso e o que dá um prazer extremo.

 

A felicidade é uma atividade de acordo com a excelência e da melhor parte do humano, essa atividade é, segundo Aristóteles, contemplativa.

 

 

Nós pensamos também que a felicidade tem de estar misturada com o prazer, porque a mais agradável de todas as atividades que se produzem de acordo com a excelência é unanimemente aclamada como a que existe de acordo com a sabedoria. Parece, então, pois que a filosofia possui a possibilidade de prazer mais maravilhosa que há em pureza e estabilidade...

 

Enquanto humanos, temos necessidades vitais, mas uma vez suprida essas  necessidades, o sábio se volta para a contemplação, o que possibilita a sua independência auto-suficiente.

 

O sábio é capaz de criar uma situação contemplativa sozinho apenas a partir de si próprio e em si próprio, e quanto mais sábio for mais facilmente o consegue fazer.

                                                                                                                      Trad. A. C. Caeiro

 

 

Léon Robin define a felicidade grega como algo parecido com a “boa sorte” atribuída por uma graça divina; há um daimon que acompanha homem grego por toda vida como guardião da sua sorte, seguindo-o até o Juízo.

Platão, na República, recupera, em parte,  este mito através de Er.

Para os gregos, a felicidade se dava numa completa realização da natureza humana. A essência da moralidade como fim último tanto na obtenção como na manutenção da felicidade.

 

 

* Agradável entenda como feliz.

 

 

Créditos

 

ARISTÓTELES, Ética a Nicómano. Trad. António de Castro Caeiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2012.

PLATÃO. A República. Trad. Maria H. da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

             . Leis, vol. XII-XIII. Trad. Carlos Alberto Nunes. Pará, Universidade Federal do Pará, 1980.

ROBIN, L., A Moral Antiga. Porto: Edições Despertar, [19??]

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A superioridade do homem na filosofia Agostiniana


por Leandro Morena

clip_image001Seguindo a tradição da Bíblia, o filósofo Santo Agostinho (354-430) reafirma que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Agostinho explica que o homem é semelhante a Deus, principalmente, e, sobre tudo, pelo intelecto, pois este é a alma. A filosofia agostiniana coloca a singularidade da espécie homo sapiens como uma “divindade”, e assim, este pode usufruir de todas as outras espécies como bem entender.
Na obra de Agostinho, A Cidade de Deus, em várias passagens, fica muito evidente essa superioridade.  Agostinho explica que Deus ao criar o homem, um ser racional, permitiu que o mesmo dominasse todas as outras espécies: os peixes, as aves, os répteis, considerados irracionais. Para ele, essa é a ordem natural das coisas.  O filósofo afirma que o homem tem que dominar apenas as espécies irracionais, e não pode dominar a si mesmo, isto é, a sua espécie.clip_image001[4]
             Agostinho declara que o homem é tão perfeito, pois a beleza do corpo humano, os órgãos dos sentidos bem estruturados, a postura do homem erguida para o céu (essa posição mostra que o homem tem que desejar as coisas do alto), a bondade, a capacidade da linguagem, mostra-nos o quão existe de Deus no corpo humano e tudo isso tão bem elaborado, para servir a alma racional nessa criação magnífica. Seguindo a tradição da filosofia platônica, (ver o artigo publicado nesse blog: O pensamento Platônico acerca da Transmigração das almas), diferentemente do homem, continua Agostinho, os animais irracionais, além de não possuírem uma alma imortal, estão curvados para a terra, o que consolida, mais ainda, um distanciamento dessas espécies com o criador. Ele vai afirmar que mesmo alguns animais por serem mais fortes e ágeis do que o homem, não os faz superiores, pois na escala da natureza, o homem é a perfeição nobre, única e exclusiva da criação.
A singularidade do homem na filosofia agostiniana vai estender-se pelo período medieval, onde muitos pensadores, citando o exemplo do filósofo São Tomás de Aquino (1225-1275), continuarão com a ideia da superioridade da vida humana, e estender-se-á na Filosofia Moderna, ficando evidente, principalmente nas filosofias cartesiana e espinosana.

No quadro abaixo, o pensamento agostiniano das principais diferenças que tornam o homem um ser superior:

Homem
Demais espécies
Possui intelecto, ser racional
Irracionais
Anatomia perfeita (corpo erguido para o céu)
Anatomia imperfeita (corpo curvado para a terra)
Possui alma imortal
Não possui alma
Usufrui da natureza (pois é a ordem natural)
Existem unicamente para servir o homem
Imagem e semelhança do Criador
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 Créditos:
AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus contra os Pagãos, vol. II, 4º Ed. Trad. Oscar Paes Leme. Editora Vozes, São Paulo, 2002.










terça-feira, 16 de abril de 2013

Epicteto, o Escravo Filósofo (50 - 138 d.C.)

por Osvaldo Duarte
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Breve notícia
 
Mestre Epicteto nasceu em Hierápolis na Frígia entre 50 e 60 d.C. Enquanto escravo frequentou as lições de Caio Musônio Rufo, filósofo estóico, cuja Escola ficava em Roma. Da sua condição servil, originou o cognome Epicteto (Escravo). Ainda quando jovem, foi torturado pelo seu senhorio que o deixou coxo. O filósofo, desprendido de bens materiais, costumava estudar sob a luz de um candeeiro de barro, pois o de metal fora roubado, o que não pôde deixar de queixar-se a si mesmo: “Ainda tinha em minha casa algo que pudesse despertar a cobiça”. Como escravo, Epicteto foi preceptor dos filhos de Epafrodito, confidente de Nero, sendo que mais tarde seu amo o libertou.
 
Entre 88/93 d.C. Domiciano publicou um decreto expulsando os filósofos de Roma, A. Gélio nos informa:
 
Durante o consulado de Caio Fânio Estrabão e Marco Valério Messala, publicou-se um decreto do senado sobre os filósofos e sobre os retores. “O pretor Marco Pompônio consultou o senado. Porque as palavras se produziram sobre os filósofos e sobre os retores, desse fato assim consideraram o pretor Marco Pompônio advertisse e cuidasse que em Roma, como lhe parecesse conforme a sua fidelidade e conforme a república, eles não ficassem”.
                                                                                                        Trad. José R. Seabra F.
 
Após o decreto, Epicteto já liberto, retirou-se para a Nicópolis no Épiro, fundando aí a sua prestigiosa Escola. Ignoramos a data da sua morte, mas é assente que ocorreu por volta do ano 138 d.C..
Sua vida foi sempre celibatária e pobre.
 
Suas Lições
 
Sua Escola foi famosa na época, atraindo ouvintes de vários lugares, todos entusiasmados pelas lições do Mestre. As aulas eram orais e com rigor lógico; ensinava dialogando à maneira de Sócrates, onde não faltava, é claro, uma pitada de ironia. Lia-se um texto de algum filósofo do estoicismo primitivo e comentava-o, procedendo a exegese moral. Dos seus alunos eram exigidos exercícios escritos e orais. Expressava-se com carisma, e valendo-se da koinê, isto é, da linguagem comum do povo.
 
Para progredir em Filosofia, seus discípulos eram orientados à modéstia e a terem paciência, pois, filósofo se faz com o tempo e não da noite para o dia.
 
Como bom estóico, tinha como princípio a moral; exigia de todos que frequentavam as suas lições que fizessem o exame de consciência, não no sentido de confissão, ou de punição, mas para rever suas atitudes e procurar melhorá-las com o intuito de atingir a autárkeia (domínio de si – auto-suficiência).
Sua filosofia era da práxis, ou seja, tinha por objetivo a prática na vida cotidiana.
Epicteto foi um grande Filósofo, Educador e Conhecedor da alma humana.
 
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Sua obra
 
Assim como Sócrates, Epicteto não deixou nada escrito. O que nos chegou foram as Diatribes (ao que parece serem oito livros, mas somente quatro restaram), e o Enchiridion (Manual - Máximas extraídas das Diatribes), obras  que são anotações de um dos seus discípulos Flávio Arriano, grego de nascimento, mas com cidadania romana, que assim nos adverte:
 
Não redigi as lições de Epicteto (...). Mas tudo o que ouvi dizer, transcrevendo, o quanto possível com as mesmas palavras, tentei conservar para o futuro como recordação do seu pensamento e do seu franco falar.
 
 
Sua Filosofia
 
Estóico como Sêneca e Marco Aurélio, sua filosofia é eminentemente moral, mas no caso,  com acentuada preferência pela filosofia de Crísipo na tentativa de recuperar a filosofia primitiva do Pórtico, e nem por isso deixou de absorver a filosofia do seu tempo e, com muita cautela, também acolheu a mensagem de Diógenes, o Cínico.
Sua ética tem como princípio a clara distinção entre bens, males e indiferentes:
Os bens são as virtudes e as coisas que participam dela. Os males são os vícios e das coisas que participam deste, ou seja, contrários à virtude. Os indiferentes são as coisas externas e referentes ao corpo, tais como: saúde, vida, morte, prazer, pena...
 
As coisas que acontecem em nossa vida dividem-se em duas classes, a saber:
 
I) Das coisas que estão em nosso poder - O bem e o mal, pois ambos dependem da nossa vontade, estão em nosso poder fazer ou não.
 
II) Das coisas que não estão em nosso poder – Tudo o que não depende da nossa vontade.
 
Para lançar luz, recorremos ao Manual:
 
Das coisas que há no mundo, umas estão em nossa mão, e outras não.  Em nossa mão está a opinião, e suspeita, e apetite, e aborrecimento, e desejo, e numa palavra, todas as obras que são nossas. Não estão em nossa mão o corpo, a fazenda, nem a honra, nem o senhorio, nem em efeito nenhuma das que não são obra nossa.
                                                                  Trad. Frei Antonio de Souza
 
As coisas que dependem de nós são por natureza livres, sem impedimento, isentas de obstáculos; e as que de nós não dependem são inconsistentes, servis, susceptíveis de impedimento, estranhas.
                                                                                                                  Trad. Pedro Alvim
 
Não queiras que as coisas, que sucedem, sejam sempre à tua vontade; mas se queres acertar, quere-as como elas vierem. A doença impedimento é ao corpo, mas não ao teu instituto, se tu mesmo não queres: o ser manco, impedimento é dos pés, do teu intento não. E assim, se em tudo o que suceder, fizeres esta conta, acharás que as coisas serão impedimento a outras, e não a ti.
                                                                  Trad. Frei Antonio de Souza
   
Não exijas aconteça como tu desejas aconteça. Antes queiras aconteçam as coisas como acontecem – e quão feliz, então, não serás!
                                                                                                                  Trad. Pedro Alvim
 
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Influência da sua Escola
 
Seu Manual exerceu forte influência entre pagãos e  cristãos que o admiravam. Com efeito, o Manual também foi adotado pelo monaquismo, para uso dos monges eremitas do Monte Sinai. São Bento utilizou-se de alguns preceitos para os monges do Ocidente. Mais tarde, Pascal foi também um grande admirador de Epicteto, o escravo Filósofo.
 
Créditos:
 
EPICTETO, Manual de Epitecto: Máximas Diatribes e Aforismos. Lisboa: VEGA, 1992.
GÉLIO, A., Noites Áticas. Trad. José R. SEABRA F.. Londrina: Eduel, 2010.
PETERS, F. E., Termos Filosóficos Gregos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1977.
REALE, G., Renascimento do Platonismo e do Pitagorismo. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
ULLMANN, R.  A., O Estoicismo Romano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.

sábado, 13 de abril de 2013

A filosofia de Leão Hebreu

 

por Leandro Morena

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Leão Hebreu (1464-1535) foi um filósofo de origem portuguesa. O seu nome verdadeiro é Judá Abravanel. Especializou-se nos estudos de Cabala e nos estudos da filosofia clássica hebraica, muçulmana e latina e formou-se em medicina.

Na filosofia destacou-se por mostrar a semelhança da bíblia com a filosofia grega, “santificando” principalmente o platonismo. Uma das suas principais obras, Diálogos de Amor, é um diálogo entre dois amantes em que os protagonistas são: Fílon o amor e Sofia a sabedoria. Nesta obra o filósofo pretende mostrar sua doutrina afirmando que o amor é uma fundamentação ontológica da realidade, idealizado como sentimento e intelecto. Deste modo Leão Hebreu unifica razão e fé, esta última como predominante.

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A teoria do amor foi retomada da filosofia de Nicolau de Cusa (1401-1464) e Marcílio Ficino (1433-1499). Para o filósofo Leão, o amor tem um duplo processo, circularidade cósmica, isto é, que vai de Deus ao homem e do homem para Deus, ou seja, o homem é a única conexão de Deus com o mundo terreno, e isso faz com que o homem seja o centro do universo.

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O amor é a que tudo acalora e a tudo adapta. Quando o intelecto humano faz união ao corpo, conduz a luz divina do mundo superior para o mundo inferior e faz assim participar de Deus tudo quanto foi criado. Segundo Abbagnano, o amor de Deus pelo mundo inferior, mundo este que é imperfeito, tem como objetivo que este mundo atinja o grau elevado de perfeição e beleza. O amor do homem tem como finalidade a plena e absoluta união com Deus.

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Créditos:

ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia - vol.V, 2º Ed.Trad. Nuno Valadas e Antônio R. Rosa. Lisboa, Editorial Presença, 1978.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A cidadania ateniense


por Osvaldo Duarte
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Atenas não cedia o direito de cidade aos estrangeiros domiciliados em seu território. A princípio, eram considerados cidadãos atenienses, os filhos de pai ateniense independentemente da pátria da mãe.
Com desenvolvimento do comércio, muitos estrangeiros foram atraídos à Ática, e ali se estabeleceram, provocando um aumento significativo no número de casamentos mistos.
Em 451 a.C., Péricles propôs a lei de que era considerado cidadão, filho de pai e mãe, ambos com direito de cidade. O filho que não se enquadrava nesta lei, era considerado impuro, bastardo, um nothos; por este motivo, o ateniense quando apresentava o filho à fátria, jurava que sua esposa era também ateniense. O título de cidadão era cedido ao jovem de dezoito anos, pela sua inscrição no registro no demo. Durante os dois próximos anos, o jovem servia como membro da milícia e, somente aos vinte anos é que tomava posse dos seus direitos como cidadão, possuindo assim, a plenitude dos direitos civis e políticos, podendo ter assento na assembléia, opinar e votar, ter um cargo na magistratura e nas demais funções que competiam aos cidadãos. Para exercer a magistratura superior, o jovem deveria ser abastado.
A fátria, embora não tenhamos clareza do seu significado no mundo grego, ao que tudo indica, era um agrupamento constitutivo da cidade, evocando uma relação familiar, ligada à vida dos cidadãos, pelo nascimento, pela iniciação do jovem, casamento, etc..
Além de gozar dos direitos políticos, como dissemos acima, os cidadãos eram os únicos que possuíam terras. A maior parte do seu tempo era destinada aos assuntos da cidade (questões públicas). O comércio e a indústria pouco o atraiam, pois tais funções não eram dignas de um cidadão, a não ser a exploração de pedreiras e das minas por estarem ligadas diretamente às suas propriedades. Cabia aos estrangeiros (metecos) e aos escravos o trabalho industrial e comercial.
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A democracia triunfava, e o direito de cidade dava aos que dele desfrutavam vantagens materiais e morais. Quem não era considerado cidadão, empenhava-se em sê-lo, ao mesmo tempo quem o era, defendia esse privilégio. O direito de cidade somente era concedido a um estrangeiro apenas sob reconhecimento nacional, uma recompensa por serviços eminentes.
Créditos:
CROISET, A. As Democracias Antigas. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1923.
GLOTZ, Gustavo. História Econômica da Grécia. Lisboa, Edições Cosmos, 1973.
MOSSÉ. Claude. O Cidadão na Grécia Antiga. Lisboa, Edições 70, 1999.










segunda-feira, 11 de março de 2013

Das classes sociais – Platão – 428/7 – 347/6

por Osvaldo Duarte

 

 

Para propor uma divisão de classes (parte da cidade) na sua República – Livro III, Platão recorre a uma nobre mentira da Fenícia:

 

“(...) na verdade, tinham sido moldados e criados no interior da terra, tanto eles, como as suas armas e o restante do equipamento; e que, depois de eles estarem completamente forjados, a terra, como sua mãe que era, os deu à luz, e que agora devem cuidar do lugar em que se encontram como de uma mãe e ama, e defendê-la, se alguém for contra ela, e considerar os outros cidadãos como irmãos, nascidos da terra.

 

No Estado harmonioso e pacífico, os cidadãos devem viver como irmãos e, cada classe tem o seu papel importante na manutenção dessa sociedade. Platão divide esta sociedade em três classes: Os que governam (os que mandam-Filósofos), os auxiliares (guerreiros), e os que produzem (lavradores, artífices).

 

“(...) mas o deus que vos modelou, àqueles dentre vós que era aptos para governar, misturou-lhes ouro na sua composição, motivo por que são mais preciosos; aos auxiliares, prata; ferro e bronze aos lavradores e demais artífices.”

 

Esta estrutura social não era rígida quanto à escolha dos cidadãos entre as classes, pois estavam todos unidos pelo grau de parentesco.

 

Prossegue Platão:

 

“Uma vez que sois todos parentes, na maior parte dos casos gerareis filhos semelhantes a vós, mas pode acontecer que do ouro nasça uma prole argêntea, e da prata, um áurea, e assim todos os restantes, uns dos outros. Por isso o deus recomenda aos chefes, em primeiro lugar acima de tudo, que aquilo em que devem ser melhores guardiões e exercer a mais aturada vigilância é sobre as crianças, sobre a mistura que entra na composição das suas almas, e, se a sua própria descendência tiver qualquer porção de bronze ou ferro, de modo algum compadeçam, mas lhe atribuam a honra que compete à sua conformação, atirando com eles para os artífices ou os lavradores, e se, por sua vez, nascer destes alguma criança com parte de ouro ou de prata, que lhe dêem as devidas honras, elevando-os aos guardiões, outros aos auxiliares ...”

 

ouro prata bronze

 

Os governantes deverão ter uma boa educação e não será permitido possuir bens próprios, a não ser coisas de primeira necessidade, sendo que ao possuírem dinheiro, terras e habitações serão administradores dos seus próprios bens e não cuidarão da cidade.   Esta classe deverá ser pura, não precisando nada de humano, pois já têm em sua alma ouro e prata.

 

 

Créditos:

PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.                                                                                        

AMZALAK, M.B. Platão e a Economia da Cidade. Lisboa, 1950.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O governo de um só – Tomás de Aquino – 1224 - 1274 d.C

 

por Osvaldo Duarte

tomas de aquino

Com vistas à natureza, Tomás reforça a sua tese de que o governo de um só, isto é, o governo do príncipe, é preferível aos demais regimens de governo.

“O mais bem ordenado é o natural; pois, em cada coisa, opera a natureza melhor. E todo o regímen natural é de um só. Assim, na multidão dos membros, um é o que a todos move, isto é – o coração; e, nas partes da alma, preside uma faculdade principal, que é a razão. Têm as abelhas uma só rainha, e em todo o universo há um só Deus, criador e regedor de tudo.Tôda a multidão deriva de um só. Por onde, se as coisas de arte imitam as da natureza e tanto melhor é a obra de arte, quanto mais busca a semelhança da que é da natureza, importa seja o melhor, na multidão humana, o governar-se por um só”.

O nome tirano, segundo o doutor Angélico, é derivado de força, pois oprime pelo poder, ao invés de regrar pela justiça.

“Assim, porém, como é ótimo o regímen do rei, também é péssimo o governo do tirano”.

Do mau governo:

Tirania – governo de um só , regime injusto.

Oligarquia – principado de poucos que por terem riqueza, oprimem o povo, diferindo do tirano apenas em número.

Democracia – regime iníquo que se exerce por muitos; populacho oprime os ricos pelo poder da multidão, sendo então todo o povo como um só tirano.

Do bom governo:

Aristocracia – governo de poucos, mas virtuosos.

Em defesa do Rei:

Rei é o pastor que busca o bem comum e não o interesse próprio.

Créditos:

AQUINO. Tomás. Do Govêrno dos Príncipes. Trad. Arlindo Veiga dos Santos. São Paulo, Editora Anchieta, 1946.