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Pansophia

Pansophia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Remédio Horaciano (Carpe Diem) – Horácio (65 – 08 a.C.)


por Osvaldo Duarte

Tradução de Elpino Duriense – Edição Lisboa, 1807


Ode Livro I, XII


A LEUCONOE

Saber não cures, (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leuconoe, os babilônios
Cálculos, porque assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho côa, e corta
Em vida breve as longas esperanças,
Ínvida idade foge: Colhe o dia
Do de amanhã mui pouco confiando.




HORÁCIO, Obras Completas, São Paulo, Edições Cultura, 1941.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Da Dúvida e da Fixação da Crença – Charles Sanders Peirce (1839-1914)


por Osvaldo Duarte

Neste pequeno texto procuramos abordar através de excertos, dois métodos de fixação de crença: método da tenacidade e o método da autoridade, segundo Peirce.

Para Peirce, sabemos que há diferença entre formular uma pergunta e formular um juízo, pois há uma diferença propriamente dita entre a sensação de dúvida e a de crer. Entretanto, existe uma diferença, prática, sendo que nossas crenças orientam nossos desejos e dão contornos a nossas ações, por exemplo: Os sequazes do velho da montanha precipitam-se para a morte à sua mais leve palavra de ordem. Duvidassem, não teriam agido assim.

A dúvida é um estado desagradável, incômodo, do qual lutamos para libertarmos e atingirmos o estado de crença, pois este estado é de tranquilidade e satisfação, eis o estado que desejamos e, não queremos evitar ou transformar a crença em algo diverso. Pelo contrário, desejamos não apenas crer, mas crer no que cremos.

Assim, tanto a dúvida como a crença, segundo Peirce, têm sobre nós efeitos positivos, embora muito diversos. A Crença, por sua vez, tem um efeito ativo, isto é, não nos leva a agir de imediato, mas nos coloca em situação que, chegado o momento, nos comportaremos de certo modo. A dúvida não tem este efeito ativo, mas estimula-nos a indagar até vê-la completamente destruída. Na verdade, este estímulo é um esforço da dúvida para chegar ao estado de crença. A este estímulo denominamos Investigação.

A investigação é, pois, o único motivo imediato que a dúvida faz para chegar à crença. É conveniente que nossas crenças orientem devidamente as ações de forma a satisfazermos nossos desejos; esta reflexão nos leva a rejeitar toda crença que não possa assegurar este resultado. Com a dúvida o esforço começa, e termina quando cessa a dúvida. A investigação, portanto, tem por objeto único o acordo de opiniões, não bastando apenas uma opinião, mas sim, a opinião verdadeira. Tão logo alcançamos a crença nos damos por satisfeitos por completo, seja esta crença verdadeira ou falsa. O acordo de opiniões, como dissemos, sendo o único objetivo das opiniões constitui proposição importantíssima, pois afasta de imediato diversas concepções vagas e errôneas.

Muitas vezes o homem adota o procedimento de que algo é verdadeiro e não deseja acreditar que não o seja; a indecisão do espírito e o horror à dúvida faz com que se apegue a posições já adotadas, achando sem titubeio que sua crença será inteiramente satisfatória. A fé sólida proporciona grande paz no espírito. Quanto às questões religiosas, o homem retira o prazer de sua fé sobrepujando as inconveniências que possam decorrer de seu aspecto menos favorável. Se for verdade que ao morrer irá para o céu, contanto que se observem certos preceitos nesta vida, gozará de um prazer trivial que não se acompanhará de algum desapontamento.

Frequentemente se ouve dizer que “Não posso crer nisso ou naquilo, pois seria desgraçado se acreditasse”. Esta atitude lembra o avestruz que enterra a cabeça na areia, escolhendo o caminho mais fácil, dissimulando o perigo dizendo que tal perigo não existe. Assim, pode o homem atravessar sua vida afastando seus olhos daquilo que possa levá-lo a mudar de opinião. Quem adota este método de fixar uma crença não se propõe a ser racional, pois tal qual o avestruz está escolhendo o caminho mais fácil. Este método de fixar crença pode ser denominado método da tenacidade, sendo incapaz de sustentar-se na prática, pois a corrente social lhe é contrária. O homem que adotar este método encontrará outros homens com posições diferentes, observando que existem opiniões tão boas quanto as suas, isso abalará a confiança na crença que possui. Essa concepção, isto é, de que pensamento ou sentimento de outro homem possa ser tão procedente como o seu é uma conquista nova e altamente importante. Nasce de um impulso demasiadamente forte, cuja supressão colocará em risco a destruição da humanidade. Peirce, desviando seu olhar do problema da fixação de crença individual passa a analisar o problema na comunidade.

Quando opera a vontade do Estado e não a do indivíduo:

“Crie-se uma instituição que terá por meta oferecer à atenção do povo as doutrinas corretas, reiterando-as continuadamente, transmitindo-as à juventude e tendo, ao mesmo tempo, o poder de impedir que doutrinas contrárias sejam ensinadas, advogadas ou proclamadas. Que todas as possíveis causas de mudança de ideia sejam afastadas, deixando de ser motivo de apreensão para os homens. Que eles se mantenham ignorantes e não conheçam razão alguma que os leve a pensar diversamente do como pensam. Que suas paixões sejam recenseadas para que eles possam encarar, com aversão e asco, opiniões individuais incomuns. Que todos os homens que repelem a crença estabelecida se vejam condenados ao silêncio. Que o povo apontem esses homens o os unte de alcatrão e cubra de penas ou que se institua uma inquisição para perquirir de maneira de pensar de pessoas suspeitas e que estas declaradas culpadas de crenças proibidas, estejam expostas a punição exemplar. Quando não se consegue acordo completo por outra forma, o massacre de todos os que não pensem de certa maneira tem-se mostrado meio muito eficaz de igualar as opiniões em um país. Se o poder de assim agir não bastar, que seja preparada uma lista de opiniões – com a qual homem algum com a mínima independência de pensamento poderia concordar – e que os fiéis sejam conclamados a aceitar essas opiniões, para que possam ver-se segregados tão radicalmente quanto possível da influência do resto do mundo.

Esse método tem sido, desde os primeiros tempos, um dos principais meios de sustentar corretas doutrinas teológicas e políticas e de preservar-lhes o caráter católico ou universal. Em Roma, especialmente foi praticada desde os tempos de Numa Pompílio até os de Pio IX. Este é o mais perfeito exemplo histórico; mas, onde quer que tenha surgido um clero – e nenhuma religião dele prescindiu – esse método foi utilizado em maior ou menor escala. Onde quer que haja uma aristocracia, grêmio profissional ou associação de classe, cujos interesses dependam de ou suponha-se que dependam de certas proposições, encontram-se inevitavelmente, traços desse produto natural do sentimento coletivo. O sistema sempre se acompanha de crueldade e, quando coerentemente imposto, os procedimentos cruéis adquirem, aos olhos de qualquer homem racional, as proporções de atrocidades de pior espécie. E isso não deve causar surpresa, pois o defensor de uma sociedade não vê justificativas para sacrificar o interesse dessa sociedade no altar da mercê, onde sacrificaria interesses individuais. Natural, portanto, que a simpatia e a amizade levem, por esse caminho, ao mais brutal exercício de poder.”

Peirce denomina o método de fixar crença pelo Estado de método da autoridade e, reconhece a sua imensa superioridade mental e moral sobre o método da tenacidade. Isso poderá ser observado nas fés organizadas sendo que, nenhum credo dessas fés permanece idêntico a si mesmo, pois sua transformação é muito lenta tornando-se imperceptível durante uma vida humana; a crença individual permanece, no que é sensível, fixa. Para a massa da humanidade é, talvez, o método mais eficiente:

“Se o mais intenso impulso que experimentam os leva a serem escravos intelectuais, escravos devem continuar.”

As Instituições só regulamentarão opiniões acerca dos assuntos mais importantes, quanto ao resto deixarão às causas naturais. Essa imperfeição continuará enquanto os homens permanecerem num estado em que as opiniões não se influenciem reciprocamente, isto, é, enquanto não souberem somar suas ideias. Nos Estados onde haja um maior domínio clerical, surgirão indivíduos que ultrapassam aquela condição. Estes indivíduos são dotados de um aguçado sentimento social, percebem que existem outras comunidades, regiões, homens que cultivam doutrinas muito diversas daquelas em que foram ensinados a professar; atribuindo a um mero acidente seus ensinamentos e de os terem rodeados de hábitos de certos grupos o que o levaram a ter determinada crença e não algo diferente. Assim, a dúvida surge nos espíritos.

Destarte, esses homens perceberão que as dúvidas desse jaez podem penetrar os espíritos com referência a qualquer crença, seja ela brotada deles próprios ou de causa externa, isto é, dos que fizeram surgir as opiniões populares. Portanto, a adesão a uma crença por imposição arbitrária deve ser abandonada.

Créditos

Peirce, Charles Sanders. Semiótica e Filosofia. Tradução de Octanny Silveira da Mota e Leonidas Hegenberg, São Paulo, Cultrix, 1975.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Abate Humanitário

por Leandro Morena

O abate humanitário foi criado para atender as exigências contra aos maus tratos com os animais. Esse projeto visa o bem-estar animal. A função do abate humanitário é tomar o cuidado para que os animais que são criados em abatedouros não passem estresse e tenham uma morte indolor, sejam levados para o abate sem que percebam, e que não vivam em condições precárias. Um dos pontos cruciais disso é que o comportamento natural dos animais vai ser respeitado. Em todas as fases do processo, desde o transporte e a chegada do animal no abatedouro até o abate, eles serão tratados de uma maneira mais dócil e não percebam quando encaminhados para o abate. Os funcionários passarão por cursos que ensinam esse processo que visará o bem do animal.
Segundo o filósofo Peter Singer, nos países desenvolvidos que aderiu ao abate humanitário, o animal sofre bem menos, pois a morte é rápida e sem dor. Nesse procedimento os animais são atordoados por uma corrente elétrica ou uma pistola pneumática e são abatidos enquanto estão inconscientes. Hoje o mercado europeu é um dos mais exigentes na questão do abate humanitário. Os EUA aderiram a essa técnica, mas eles deixam bem claro que o animal abatido de forma arcaica, a carne não fica tão saborosa como a carne do animal que é abatido no método indolor; eles não estão preocupados com os animais, mas sim com o sabor da carne.
Sabemos que na sociedade humana existem falhas em todas as esferas, e é claro, não poderia deixar de existirem falhas no abate humanitário. Os pontos que Singer vê falhas são: o custo. Um frigorífico que queira adotar esse método, as instalações são muito caras, para muitos donos não vale a pena. Outro problema é a questão religiosa: algumas religiões não aceitam que o animal esteja inconsciente quando vai ser abatido, pois a tradição afirma que o animal esteja vivo enquanto agoniza com a garganta dilacerada, somente assim pode-se ingerir a carne.
Para o filósofo norte americano Tom Regan, esse sistema gera muitas falhas: entre elas está: muitos dos que trabalham no abatedouro não sabem que existe o abate humanitário; não se exige que os fiscais sejam obrigados a visitar o abatedouro; os corruptos, que farão “vistas grossas” em troca de “presentes”; os fiscais que queiram cumprir à lei sempre sofrerão pressão ou agressões para que se intimidem e descumpram a lei.
Eu acredito que o termo “abate humanitário” soa mais como um disfarce para que não gere um impacto na sociedade. É a mesma coisa que ver um mendigo e afirmar: “é morador de rua.” O significado da palavra rua é: via de acesso numa povoação; ora, não significa moradia, quem vive na rua é porque não tem moradia. A sociedade contemporânea criou essa expressão “morador de rua” simplesmente para minimizar o que realmente é um mendigo: uma pessoa que não tem onde morar e, infelizmente, não tem o que esperar da vida. O termo abate humanitário faz com que o cidadão imagine que os animais vão ter uma vida feliz e vão alegres para o abate, sabemos que não funciona assim.
Ou bem ou mal, o abate humanitário está sendo aderido por várias nações, entre elas o Brasil, que no ano de 2010 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o termo que aderiu ao sistema do Abate Humanitário (Programa Nacional de Abate Humanitário – STEPS). Aqui ainda é um processo embrionário, mas o importante é que já se deu o primeiro passo, pois se uma nação que quer caminhar para o primeiro mundo, tem que mostrar preocupação também com as outras espécies. Isso mostra que a sociedade humana está se preocupando mais com as outras espécies, até nesses animais que vão para o abate, sendo que anos atrás, nem se falava da questão dos abatedouros.
A meu ver, existe um ponto que tem que exigir das pessoas que vão fiscalizar os abatedouros: é que os fiscais sejam pessoas de ONGs que defendam os animais,  pois o que adianta colocar um fiscal que não goste de animais ou nunca teve preocupação com essa causa? É lógico que com um fiscal assim nunca a lei será cumprida. Já um fiscal que tenha o quesito acima, será mais qualificado para essa questão, e não ficará tímido em denunciar os erros dos abatedouros. Mas para isso é preciso reunir os políticos, o poder judiciário e os ativistas de ONGs, até que cheguem a um acordo, para que seja determinada uma lei rigorosa para punir quem descumpri-la.
O importante é que a sociedade e a filosofia estão cada vez mais se preocupando com a causa dos animais que vão para o abate. O Abate humanitário está aí e a tendência é cada vez mais aprimorá-lo.

Créditos
REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Editora Lugano, Porto Alegre, 2006;
SINGER, Peter. Libertação Animal, Editora Lugano, São Paulo, 2008;
Figura 1: Suínos: http://www.agrolink.com.br
Figura 2: Bovinos: http://www.guiamedianeira.com.br

domingo, 8 de janeiro de 2012

Laços sociais

por Leandro Morena


Mary Midgley (1919- ) nasceu na Inglaterra, é uma filósofa moral, e uma das causas em que se dedica é a questão dos animais. Em sua obra Animals and Why They Matter, ela vai afirmar que os seres humanos possuem um laço social muito forte com os seus semelhantes, ou seja, isso é que gera a conduta do ser humano em se preocupar mais com o outro ser humano do que com as outras espécies. Para a filósofa, esses laços sociais se justificam moralmente nas ações em que o homem pratica para com as outras espécies. Isso nos mostra o porquê o homem é tão cruel com os animais.
Midgley também defende que a importância moral da família cria maior preocupação dos laços, para isso ela cria os “Círculos do ‘eu’ central” que mostra o que estiver mais próximo do “eu” é que gera maior preocupação, à medida que o que estiver mais distante do “eu” central vai gerar menos preocupação. Na figura abaixo esse argumento de Midgley fica mais claro:
Observamos no círculo que mesmo outros seres humanos como colegas, tribos ou raças geram menos preocupação, pois estão mais distantes do “eu” central.
Pode-se criar um argumento contra essa tese da Midgley. Alguém pode afirmar que esse argumento não se aplica para uma pessoa que defenda aos animais? Elas quebram esse círculo? Eu acredito que as pessoas que adotam a causa animal também não quebrarão esse círculo. Vamos criar uma situação ilusória: imaginem uma pessoa que defenda os animais e que está num navio com a sua família e com outras pessoas (como colegas de trabalho e pessoas que ele nem conhece). A bordo do navio estão animais que foram apreendidos por maus tratos, e o ativista vai levá-los para uma entidade que cuide desses animais. Suponhamos que o navio, por um acidente, sofra uma perfuração no casco e comece a afundar rapidamente. O que o ativista faria? Com certeza ele iria preocupar-se primeiro com a sua família e tentaria de todas as maneiras salvá-los. Suponhamos o mesmo exemplo, só que a diferença é que o ativista está no navio sem a sua família, nesse caso, ele primeiro tentaria salvar os seus amigos mais próximos, se não estivessem seus amigos, ele tentaria salvar os seus colegas. Usando o mesmo exemplo, só que agora o ativista está no navio e encontra-se com pessoas estranhas, pessoas estas que ele nunca as viu na vida. Acontecendo que o navio vai afundar, o ativista tentaria salvar essas pessoas que ele nunca se quer conversou. Em todos os exemplos acima, dificilmente o ativista pensaria em salvar primeiramente os animais que estão a bordo do navio, só os salvaria se naquele navio estivesse somente os animais e ele. Criei esse exemplo para mostrar que a tese de Midgley tem um fundamento sólido, pois mostra a preocupação do homem com os da sua, digamos assim, cria.  Por isso, fica difícil uma pessoa quebrar esses “laços” ou quebrar esse círculo do “eu” central.

Créditos:
FEIJÓ, Anamaria. Utilização de animais na investigação e docência, EDIPUCRS, Porto Alegre, 2005;
 MIDGLEY, Mary. Animals and why They Matter. Athens, University of Georgia Press, 1984;
Foto da Midgley: http://pos-darwinista.blogspot.com/2010/10/mary-midgley-contra-adoracao-do.html

Uma reflexão filosófica do natal

por Leandro Morena


Este pequeno artigo não visa criticar as pessoas que se alimentam de carne e nem as pessoas que gostam de comemorar o natal, mas é apenas uma reflexão do que não pensamos o que ocorre com as outras espécies nessa data.

A palavra Natal vem do latim “nativitas” e o seu significado é o nascimento. Mas parece que para as outras espécies o natal tem outro significado: a morte.
O natal é uma data alegre para as pessoas, provoca grande ansiedade positiva nelas. Reuniões familiares ou com os amigos, a felicidade, as trocas de presentes e uma mesa farta é o mais comum nessa data. As vendas no comércio aumentam consideravelmente, a economia cresce e todos ficam satisfeitos. Mas devemos nos lembrar que nesses dias o número de animais abatidos se intensifica, animais esses que vão parar nas travessas enfeitadas que estão sobre as mesas. Vão de cabritos, carneiros, aves diversas, porcos, vacas, rãs, e uma imensa variedade de peixes, entre outros. Nessa época, o drama chega para os pinheiros, pois nessas espécies de plantas lhes são cortadas às raízes para que no ano seguinte os compradores adeptos por terem árvores naturais para enfeitar tenham que comprar outro pinheiro, pois é óbvio que a planta sem raiz não resistirá. Mas é lógico, se o comerciante vender o pinheiro com raiz ele não terá mais o freguês no próximo ano, e em conseqüência disso, não terá o lucro. O que tem de errado em se comemorar o natal? Simplesmente nada de errado em se comemorar, mas a questão aqui é que esses animais que estão no prato para serem consumidos e os pinheiros enfeitados também não deveriam comemorar? Para eles a festa acabou. Alguém pode afirmar que essas espécies não precisam comemorar o natal, pois nem sabem o que isso significa. Os que defendem aos animais alegam que esse preconceito acontece pelo fato  de que o pensamento clássico pós-gregos afirma que os animais não possuem razão, coloca o homem como sendo o ser supremo na natureza, pois os humanos possuem a capacidade da linguagem e são dotados de uma razão. . Mas, felizmente, a filosofia contemporânea vem a todo o rigor criticando esse pensamento arcaico e colocando novas questões de cunho reflexivo filosófico que tem ajudado a mudar o pensamento na questão das outras espécies. Voltando aos especistas, que afirmam que os animais e as plantas não possuem a razão, mas, podemos afirmar, que estes seres não precisam idolatrar deuses, não precisam de leis escritas por outros, não precisam de governantes, tiranos ou lideres religiosos, não precisam de automóveis e aparelhos de tecnologia avançada, não precisam votar, não precisam vestir roupas, não agridem a natureza, não poluem o planeta, não espancam seus filhotes, suas fêmeas e seus idosos, não são corruptos entre outras coisas. No reino animal e vegetal não existe o tráfico de drogas, a pedofilia, o estupro, o seqüestro, a tortura, entre outras coisas. Será que é por isso que os animais e as plantas são seres irracionais? Mesmo com esses exemplos negativos que citei acima, o homem continua sendo o ser perfeito e racional, o “comandante” da Terra, o juiz que determina o destino do planeta e o que pode ser feito para melhorar a vida dos humanos, em suma, ele é o deus que decide o destino de todas as outras espécies.

Voltando a reflexão da festa do Natal, outro fato constrangedor que acontece nessa época com os animais, são as pessoas “loucas” para irem viajar e muitas vezes não tem onde deixar o seu cachorro, gato ou outro animal doméstico, e o que elas fazem? Simplesmente essas pessoas abandonam os seus animais na rua. Que horrendo é uma mãe humana abandonar o seu filho na rua, ver o desespero da criança é algo tétrico, a criança encontra-se apavorada e sem rumo, a mesma coisa se aplica aos animais de estimação, quando abandonados por seus donos, os mesmos ficam desesperados e sem rumo, e em sua maioria, morrem, ou atropelados, ou espancados, ou envenenados, ou de fome.

Não quero acabar com a festa de ninguém, mas pelo menos como o filósofo Peter Singer propôs em sua obra Libertação Animal, que os animais que vão para o abate, ao menos tenham tido uma vida feliz; com seus filhotes, correndo, dormindo sobre uma grama confortável, banhando-se ao Sol, e na hora de serem abatidos, vão sem dor e sem sofrimento, pois sabemos que esses animais vivem em verdadeiros campos de concentração animalescos.

Para os pinheiros o problema é muito fácil de resolver. As pessoas podem comprá-los com raiz e quando não os quiserem mais, plantem em alguma praça. Outra solução ainda melhor é comprar pinheiros artificiais, o que já é hábito para muitas pessoas. No caso dos animais é mais delicado. Ainda existem muitos abatedouros clandestinos que abatem seus animais de uma forma arcaica e violenta, sem dó e nem piedade, mas o que se pode fazer é saber a procedência da carne, ou seja, se a empresa que fornece essa carne aderiu ao abate humanitário, se não aderiu, o boicote da população é a melhor solução. Embora existam muitas falhas nesse método, é o que se tem de melhor solução para o presente momento.

No caso do abandono animal é simples: quem gosta de viajar muito não tenha animais; e se gosta de animais e não pode viver sem eles, pelo menos deixe o animal com um parente ou amigo que não viaje; se não quiser incomodar ninguém, leve-o em hotéis para animais domésticos, onde o animal é tratado muito bem.

O homem tem a obrigação de pensar que a vida na Terra não gira em torno dele, e que as outras espécies têm o direito de viver. Respeitar as outras espécies é respeitar a si próprio.

 Créditos

Figura 2: http://mbs-euamocaes.blogspot.com/2011/05/campanha-contra-o-abandono-de-caes-e.html
Figura 3: http://eternessencias.blogspot.com/2009/12/os-animais-e-o-natal.html
SINGER, Peter.  Libertação Animal, Editora Lugano, São Paulo, 2008.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Remédio Socrático – Platão

por Osvaldo Duarte

Na República de Platão, Sócrates prescreve a razão como remédio para suportar o revés nosso de cada dia, isto é, as adversidades que temos de enfrentar em nossa existência.
A lei diz que o que há de mais belo é conservar a calma o mais possível nas desgraças e não se indignar, uma vez que não se sabe qual é o mal e o bem que há em tais acontecimentos, nem se adianta nada, positivamente, em suportar com dificuldade; nem tudo o que é humano merece que se lhe dê tanta importância; e o que poderá acudir-nos o mais depressa possível é entravado pelo desgosto. À reflexão sobre o que nos aconteceu; e tal como se lançam os dados, assim devemos endireitar as nossas próprias posições, de acordo com o que saiu, pelo caminho que a razão escolher como melhor, e, se nos baterem, não devemos fazer como as crianças, que levam a mão ao lugar da pancada e perdem tempo a gritar, mas acostumar a alma a ser o mais rápida possível a curar e a endireitar o que caiu e adoeceu, eliminando as lamentações com remédios. A parte (da alma) que nos leva à recordação do sofrimento é a parte irracional, preguiçosa e propensa à cobardia.
Das três partes ou três elementos da Alma:
O elemento concupiscível constitui a maior parte da Alma e é, dada a sua própria natureza, ser mais insaciável de riquezas, companheiro de certas satisfações e desejos.
Quanto ao elemento irascível, é a parte irracional, pela qual ama, tem fome e sede e esvoaça em volta de outros desejos, deve ser súdito e aliado da razão no domínio do elemento concupiscível.
Ao elemento racional, sendo sábio, cabe o governar e velar pela alma toda, pois é a parte pela qual alma raciocina.
Em suma, compete ao elemento concupiscível, obedecer; ao irascível, assistir à razão; ao elemento racional, governar.
Créditos
PLATÃO. República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Gulbenkian, 2008.



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Contra os Gregos – Taciano


por Osvaldo Duarte

Taciano, o assírio, nasceu por volta do ano 120 e morreu possivelmente no ano 180. Sua educação foi eminentemente grega, da qual conservou em sua vida o gosto literário. Após ter viajado muito e ter-se iniciado em vários mistérios, estudado várias disciplinas inclusive a filosofia, converteu-se ao cristianismo, pois somente os escritos dos hebreus o satisfizeram.  Em Roma conheceu Justino, o mártir, tornando-se seu discípulo. Seu mestre exerceu profunda influência  em seu pensamento; a moralidade severa, o caráter monoteísta que afasta do dogma da criação as curiosidades físicas e metafísicas, encontra aí o seu espírito tacanho terreno fértil para suas obras. O Discurso contra os Gregos é considerado sua obra principal, composto provavelmente entre os anos 166 e 171, que segundo Gilson, é uma declaração dos direitos dos bárbaros, isto é, dos cristãos e do cristianismo, contra os helenos e sua cultura. Sua crítica não traz nada de original, já encontramos em Justino, Josefo e Fílon, argumentos análogos. Num sentimento anti-helênico, afirma que os gregos tomaram da Bíblia várias de suas ideias filosóficas e que nunca intentaram nada, nem mesmo a filosofia.
 
“Creio agora oportuno demonstrar-vos que a nossa filosofia é mais antiga do que as instituições gregas (...). Concedamos que Homero tenha vivido, não após a guerra de Tróia, mas no próprio tempo da guerra e que até tenha combatido no exército de Agamenon e que, se alguém se compraz com isso, tenha nascido antes da invenção do alfabeto. Ficará claro que o dito Moisés é, em muitos anos, mais antigo que a tomada de Tróia, muito anterior à fundação da cidade, a Tros e a Dárdano.”
 
Com a morte de Justino, Taciano permaneceu ainda muitos anos em Roma, continuando a escola de seu mestre, mas afastando-se cada vez mais de suas ideias. Considerava os deuses como personificação da imoralidade; causava-lhe verdadeiro horror as estátuas gregas em Roma, que foram erguidas, segundo ele, em honra aos homens e mulheres que foram criaturas de má nota. Desejava ver destruídas as obras de Eurípides e Menandro, pois foram mestres do deboche.

 
Taciano procura erguer sobre as ruínas da Filosofia grega o edifício do cristianismo; ainda por ter vasta erudição helênica, misturava arbitrariamente os escritos autênticos e apócrifos. Com seu espírito sombrio, violento e furioso contra a Filosofia e a civilização grega, deixava claro a sua opção pelo que chamava filosofia bárbara. Josefo, espírito do mesmo jaez, na as obra Contra Apião, afirmava que Moisés é mais antigo que Homero; nada inventaram os gregos, tudo aprenderam com outros povos, especialmente os orientais. Foram famosos apenas na arte da escrita, suas ideias eram de pouca profundidade, portanto, inferiores às ideias dos outros povos.
Para Taciano a Filosofia grega não melhorou o mundo e, nem mesmo, soube evitar os maiores crimes dos seus adeptos, pois todos eles tiveram seus vícios: Platão um gastrônomo, Aristóteles servil, Diógenes um intemperante; eram cegos a discursar com surdos. Os filósofos gregos não se entendiam, suas opiniões divergiam entre si, já no cristianismo todos professavam as mesmas opiniões: ricos, pobres, homens e mulheres. Tão longe levou suas ideias que chegou a substituir o vinho pela água no sacramento eucaristia um dos rituais tão caro aos cristãos.

(...) Diógenes, com a bravata do seu barril, ostentava a sua independência, depois comeu um polvo cru e, atacado por cólicas, morreu de intemperança; Arístipo, passeando com o seu manto de púrpura, entregava-se à dissolução mantendo a aparência de gravidade; Platão, com toda a sua filosofia foi vendido por Dionísio por causa da sua glutonaria. Aristóteles, que nesciamente estabeleceu limites para a providência e definiu felicidade pelas coisas que ele gostava, agradava depressa o rapaz louco Alexandre (...). Não posso aprovar Heráclito, quando diz: “Eu ensinava a mim mesmo”, por ser autodidata e também soberbo. (...) Também se deve rejeitar Zenão, quando ele afirma que por meio da conflagração universal os mesmo homens ressuscitarão para as mesmas ações (...). Quanto à charlatanice de Empédocles, as erupções da Sicília demonstraram que, não sendo deus, ele mentia dizendo que era.
Não vos deixei, portanto, arrastar por esses bandos de pessoas que gostam mais do barulho do que do saber e que dogmatizam coisas contraditórias, cada um dizendo o que lhe vem à boca. São muitos os choques que acontecem entre eles, pois um odeia o outro, criando doutrinas opostas por pura fanfarronice, desejando postos eminentes. 

 
Nem mesmo a astrologia escapou à sua crítica voraz.

O objeto de perversão deles são os homens, pois, mostrando-lhes, como os jogadores de dados, uma tábua com a descrição da posição dos astros, introduziram o destino (...). Dessa forma, o colérico e o sofrido, o temperante e o intemperante, o pobre e o rico dependem dos demônios que estabeleceram a lei do seu horóscopo. Com feito, a configuração do círculo do Zodíaco é obra de seus deuses e a luz de um deles, quando predomina, triunfa sobre todos os outros, embora aquele que agora foi derrotado costume, mais adiante vencer.

O destino, às vezes irônico, deu a Taciano a morte como herege, mostrando que tanto a Filosofia grega e o cristianismo têm suas cisões partidárias.  O que o perdeu foi seu desejo de ser único.




Créditos
RENAN, E., Marco-Aurélio e o fim do mudo antigo. Porto: Lélo e Irmão, Ltda, 1925.
RENAN, E., Histórias da origem do cristianismo. Porto: Lélo e Irmão, Ltda, 1929.
GILSON, Étienne. A Filosofia na Idade Média. São Paulo, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 2007.
PADRES APOLOGISTAS, Tr. I. Storniolo e E. M. Blancin. Patrística, São Paulo: Paulus, 2005.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Ofício do Filósofo

por Osvaldo Duarte


Em Teeteto, Platão nos dá a definição do ofício do Filósofo; pretendemos aqui reproduzir apenas alguns excertos.


Sócrates, que se julga incapaz de produzir saberes, tem como ofício o que se assemelha ao ofício da sua mãe Fenárete, a mais famosa e hábil das parteiras, sendo   este ofício, por culpa de Ártemis, segundo dizem, não podendo gerar filhos tornou-se protetora dos nascimentos e não deu este trabalho de parteira às mulheres estéreis, dada a sua falta de experiência, atribuindo, portanto, este ofício àquelas mulheres incapazes pela idade, de gerar filhos, honrando a semelhança consigo. O atributo da arte de Sócrates (maiêutica) é dar à luz umas vezes, fantasias, outras o que é real, não sendo fácil tarefa diagnosticar, isto é, distinguir o real do irreal, aparência da realidade; sendo que difere daquela das parteiras pelo fato de que são os homens a dar à luz e não mulheres, e ainda, seu ofício é cuidar das almas e não dos corpos que estão a parir. O mais importante da sua arte é poder verificar completamente o fruto do pensamento do jovem, isto é, se pariu uma fantasia ou mentira, ou ainda, se gerou uma autêntica verdade. Sendo muito criticado por não produzir saberes, mas sempre perguntando aos outros enquanto ele próprio não presta declarações sobre nada, alegando que não ter nada de sábio, Sócrates concorda, e atribui a sua esterilidade, tendo como causa disso o deus que o obriga a fazer nascer, impedindo-o de produzir algo próprio, alega ainda que não houve nenhuma descoberta que tenha vindo dele, nascida de sua alma, mas já aos que junto dele convive o deus permite, descobrindo por si próprios, dando à luz muitas coisas belas, não aprendendo nada com ele, sendo ele juntamente com o deus a causa do parto. Aos que se afastam do convívio antes do tempo, isto é, mais cedo do que deviam, abortam as coisas que ainda restavam por causa das más companhias e, alimentando-se mal, destruindo as coisas que ele tinha feito nascer, preferindo as fantasias e mentiras à verdade, tornando-se ignorantes tanto a si próprios, como aos outros. O gênio que o assiste, muitas vezes o impede de se juntar a uns e, a outros permite, estes por sua vez começam a melhorar. Aos que dele se associam, sofrem dores iguais às mulheres que estão a dar à luz, ficam com dificuldades durante noites e dias, mas sua arte tem o poder de provocar a dor e também de fazer cessá-la; fugirão de si mesmos em direção à Filosofia, a fim de se tornarem diferentes e se afastarem daqueles que eram antes.  Aos que não estão de todo prenhes, sabendo que não precisam dele, Sócrates adivinha de quem se beneficiariam sendo companheiros, oferecendo-os a outros sábios e inspirados.


O Filósofo não está preocupado onde fica o Senado ou qualquer lugar comum da cidade; não ouve e nem vê as leis e decretos, o empenho das uniões partidárias, reuniões, festas e jantares, aliás, nem passa pela sua cabeça se dedicar a estas atividades. O filósofo nada sabe, nem sequer sabe que não sabe todas estas coisas, pois, apenas seu corpo está na cidade e aí reside, enquanto seu pensamento, que considera isso de pouca ou nenhuma importância, o desdenha de todas as maneiras. O filosofo observa os astros, explorando por todo lado toda a natureza, no todo de cada uma das coisas, não se importando com aquilo que está perto. Assim como Tales, que caiu num poço quando observava os astros, tinha ânsia em conhecer as coisas do céu, deixando escapar o que tinha à frente. Quem se dedica à Filosofia desconhece seu vizinho, se é mesmo homem ou qualquer criatura, sua preocupação é saber o que é o homem e o que deve fazer ou sofrer uma natureza desse gênero, diferente das outras, isso é o que se preocupa em explorar. Quando diante de um tribunal ou noutro lugar qualquer, sendo forçado a discutir sobre o que está à sua frente, provoca risos em toda multidão, pois cada dificuldade é um poço que cai devido à sua inexperiência. Quando o insultam, nada tem a censurar a ninguém, visto não estar preocupado com isso; quando elogiado por um tirano ou rei, pensa que está ouvindo elogio de um guardador de rebanho, porqueiro ou pastor, contente por os animais estarem a dar muito leite, pensando que o rei ou tirano pastam ou mugem, sendo forçoso que cresçam. Quando ouve dizer que alguém possui muitas terras, pensa que ouve uma quantidade muito pequena, pois pensa que está habituado a ver a terra inteira. Se alguém celebra sua linhagem de ricos, ele acha este louvor uma estupidez acompanhada da visão limitada, de alguém incapaz pela falta de educação, calcular que já teve milhares de antepassados, tendo havido entre eles ricos, pedintes, reis, escravos, bárbaros, gregos. Em todas as ocasiões é escarnecido pela multidão por parecer arrogante e, por outro lado, ignorante das coisas que têm ao seu pé, atrapalhando-se em situações concretas. O filósofo cresce com tempo livre e em liberdade.

Créditos
PLATÃO, Teeteto, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2010. (Tradução de Adriana M. Nogueira e Marcelo Boeri, com Prefácio de José Trindade Santos.)


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Alegoria da Caverna

Sombra e luz em Platão – A Leitura de Lebrun


por Osvaldo Duarte
Em um dos discursos mais conhecidos de Platão - “A Alegoria da caverna”, mestre Lebrun examina o significado de iluminação, isto é, saída das trevas; para tal empresa divide aquela história em quatro episódios:
I) Os prisioneiros, acorrentados, imobilizados, não podendo mover a cabeça, observam o desfile de marionetes através das sombras projetadas na parede. Eles tomam por seres verdadeiros estas marionetes e creem ouvi-las falar, quando na verdade são as vozes dos carregadores.
II) Um dos cativos é liberto e fica deslumbrado pela luz do fogo, é forçado a olhar as marionetes que passam por cima do muro.
III) Retirado do antro fica cegado pela luz sendo incapaz de observar os seres reais. Aos poucos seus olhos vão se acostumando, observa então, as sombras e os reflexos, depois os próprios seres que projetam estas sombras.
IV) Seu olhar eleva-se em direção ao Sol. Conclui que esse produz a vida e as estações, que é a “causa” de tudo que ele via quando estava preso na caverna - para onde é forçado a retornar.
A caverna significa uma educação (paideía), para os prisioneiros as sombras são as próprias coisas e a luz da fogueira não é percebida como luz artificial. Somente quando liberto, vê as marionetes iluminadas pela luz da fogueira e consegue distinguir a sombra da realidade; mas está ainda longe de conhecer a verdade. Como ainda não vê os carregadores que passam embaixo do muro, ignora que as marionetes são apenas imagens de homens e de animais manipuladas por operadores não discernindo aparência da realidade. Somente ao sair da caverna é que poderá ver o que se passava do outro lado do muro, passando a distinguir as imagens dos seres vivos dos próprios seres vivos, travando conhecimento. Neste processo o liberto fica deslumbrado pelo fluxo de luz, durante certo tempo contemplará as sombras e os reflexos das coisas sensíveis, mas ainda confundirá o que chamamos de “coisas reais” com as suas imagens. No IV episódio ele verá o Sol de frente, mas ainda não será o fim da aventura.
Não é apenas pelo fato de ver o Sol que o torna superior aos demais cativos, mas porque compreende que é o Sol que garante a existência do mundo e de todos os seres vivos, dos artefatos, do fogo que acende e das sombras projetadas. É nesse momento que ele, enfim, tomou consciência de toda situação e pôde figura-la. Nesse instante a luz o inunda, pois não há mais nenhuma confusão entre aparência e realidade. Lebrun lembra que ao longo desta viagem em direção ao Sol, o liberto precisou distinguir a própria coisa daquilo que ele acreditava ser a própria coisa na etapa precedente.  Assim, continua Lebrun, cada experiência contém autocrítica da experiência anterior.
 Mas o que é a saída das trevas? Para Lebrun, a iluminação significa não uma simples ignorância, mas a ingenuidade, o que segundo ele, é completamente diversa. Platão percebe a dificuldade em dissociar a aparência da realidade, a imagem do seu original. Para Lebrun a questão não é que os homens tenham de se relacionar com as imagens: é que não sabem bem o que são imagens. A razão desta cegueira continua Lebrun, é mais simples e mais profunda, pois os homens ainda não pensam por meio da separação “aparência/realidade”, tendo de certo modo razão, pois, na vida diária a aparência não é oposta à realidade. Isso é bom, o viver sem a desconfiança de que não sabem ser a aparência, e que essa ingenuidade jamais seja completamente dissipada. Aquele que desconfiasse de que o aparecer não é senão a aparência, jamais de apaixonaria ou então seria eternamente presa ao ciúme. Essa ignorância relativa a nosso lugar é indispensável à vida.
É justamente esta ignorância que é dissipada pela luz platônica. O prisioneiro é arrancado do seu estado de inconsciência. Ele ignorava que vivia acorrentado em um antro, não tinha a menor ideia de que seu “saber” era um falso saber. Daí a resistência, a má vontade quando é constrangido a aproximar-se das marionetes e é obrigado a dizer o que é (quando é submetido ao exame dialético). A formação que lhe é imposta, não o obriga apenas em perceber as paisagens, mas também em fazer com que visite um domínio desconhecido. O importante é que o lugar em que outrora vivia, agora é completamente outro. Quando retornar o viajante não será mais o mesmo, seus antigos companheiros não o “reconhecerão”.

A ignorância que nos faz envergonhar é muito específica: cegueira acrescida de estupidez. A esta ignorância, Lebrun usa a palavra grega amathía: nada saber e crer que sabe. Para sair desta amathía é preciso “virar a cabeça”,“violentar-se”, deixar que o educador use de violência. Não basta apenas convida-los a observar melhor: é preciso obrigar aqueles que são capazes (estes não muitos) a olhar alhures.
 
Créditos
LEBRUN, G. A Filosofia e sua História, Cosacnaify, 2006.


sábado, 1 de outubro de 2011

Do Conhecimento Exotérico e Acroático

por Osvaldo Duarte

Segundo Aulo Gélio, Aristóteles transmitia  aos  discípulos seus conhecimentos e comentários de duas espécies: exotéricos e acroáticos.  As disciplinas exotéricas eram aquelas referentes às meditações retóricas e à faculdade de argúcias e, também, comentavam-se as notícias atinentes aos assuntos civis; a outra espécie de conhecimento, isto é, os acroáticos, versavam sobre a Filosofia remota e mais sutil e as que diziam respeito à contemplação da natureza e aos debates dialéticos. No Liceu, as manhãs eram consagradas ao ensino das disciplinas acroáticas, sendo admitidos somente seus discípulos, ou seja, aqueles que exploravam seus intelectos e já possuíam os elementos da erudição, aplicando ao labor do aprendizado. Ainda no Liceu, à tarde, Aristóteles  dava outro curso oferecendo a todos os jovens indistintamente sem seleção, sendo esta audição exotérica, na qual  tratava do exercício do discurso; a este curso o estagirita  chamou de passeio vespertino, ao outro, passeio matutino; pois sempre dava seus cursos passeando (peripatético).  A. Gélio ainda nos diz que, o Mestre de Alexandre dividiu distintamente seus livros e comentários de todos os assuntos tratados no Liceu, a uns chamou de “exotéricos” e a outros “acroáticos”.
Alexandre ao tomar conhecimento da publicação daqueles livros “acroáticos” por Aristóteles, ainda que estivesse ocupado com grandes atividades bélicas, enviou carta ao Mestre dizendo que não agira corretamente, porque teria divulgado por livros aquelas disciplinas acroáticas nas quais o houvera instruído: “Pois em qual outra atividade, disse-lhe, poderemos estar à frente dos demais, se ao tornar-se perfeitamente comum a todos o que recebemos de ti? Eu de fato quereria exceder mais pelo conhecimento do que pelas riquezas e opulências”.
Aristóteles respondeu-lhe, segundo A. Gélio, aproximadamente nesses termos: “Os livros acroáticos, que reclamas terem sidos publicados e daí não ocultados como secretos, fique sabendo que nem foram editados e terem sido nem não editados, porquanto só serão inteligíveis por aqueles que nos ouviram”.
A. Gélio afirma que sua fonte foi o livro do Filósofo Andronico, e elogia as epístolas como sutis e de brevidade elegantíssimas. 

Abaixo reproduzimos as cartas, com a tradução do professor José R. Seabra F.:

[De Alexandre a Aristóteles, sucesso.
Não agistes corretamente tendo publicado os acroáticos dos nossos estudos, pois de quem então nos avantajaremos, nós dos outros, se, quanto aos estudos que recebemos, estes de todos se tornarem comuns? E Eu preferiria avantajar-me sobre as melhores coisas pelas experiências a avantajar-me pelas forças. Adeus, sê forte.]

[De Aristóteles a Alexandre, sucesso.
Escreveste-me sobre os estudos acroáticos pensando ser necessário preservá-los secretos. Sabe então que eles tanto são publicados com não são publicados: pois compreensíveis são apenas aos que nos ouviram.
Adeus, passa bem, rei Alexandre, sucesso.]

Créditos
GÉLIO, Aulo. Noites Áticas. Tradução: José R. SEABRA F.. Londrina, Eduel, 2010.